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11 de outubro de 2026

A NOVELA QUEM AMA CUIDA E O MACHISMO




QUEM AMA PRENDE QUEM DEVERIA CUIDAR 

O título da novela das nove da Globo é "Quem Ama Cuida". Mas o que a gente vê na tela é o oposto: Quem ama prende, quem ama trai, quem ama bate, quem ama mente.

Walcyr Carrasco não está fazendo uma novela de amor. Ele está fazendo um raio-X do machismo brasileiro. E colocou um tipo de macho diferente em cada geração da novela. 

*1. TOM - O macho que prende na porrada*

O mais escancarado. Tom (Allan Souza Lima) começou no ciúme, no controle, no grito. Depois veio o roxo no braço da Elenice (Mariana Sena). Depois veio o pior: sacudiu a mulher e jogou ela contra a parede na frente da filhinha, a Dafne.

No restaurante ele por ciume da mulher agride o garçom e ainda põe a culpa na mulher por que diz que foi ela que deu confiança.

E o final? Trancou a Elenice dentro de casa. Ela presa, desesperada, sem saída.

É a cartilha do agressor que toda mulher conhece. Não começa na porrada. Começa no "você vai sair com essa roupa?".

*2. ADEMIR - O macho que se acha dono do corpo dos outros*


Ademir (Dan Stulbach), o advogado poderoso, que dá palestra de moral. Por trás, usava as secretárias, assediava quem trabalhava com ele, achando que o corpo da funcionária era parte do escritório.

Traiu a mulher que era fiel a vida inteira. Quando ela descobriu as traições e os assédios, foi aí que ela começou a deixar aparecer o sentimento dela pelo sobrinho dele. Ele não destruiu só o casamento, ele destruiu a dignidade da própria esposa.
É ainda entrou na casa da ex mulher e agrediu o sobrinho achando que era corno quando quem traiu foi ele. 

*3. ULISSES - O macho que prende na mentira*

²


Ulisses (Alexandre Borges) é outro tipo. O problema dele não é assédio, é vício em jogo e orgulho ferido.

Ele foi casado com uma mulher muito ambiciosa. Para não se humilhar, para não parecer um fracassado na frente dela, ele mente, esconde as dívidas, finge que ainda é o provedor rico. Ele prende o casamento numa mentira para manter o poder.

Até que a Adriana (Letícia Colin) arma a armadilha. A casa cai, ela pega o dinheiro dele e deixa ele sem nada. O castelo de mentira desaba.

*4. ARTHUR - O macho que morreu como santo, mas não era*

E aqui vem a grande revelação  e que a novela vai mostrar aos poucos.

O Arthur, o morto, o irmão e patrão  chorado por todo mundo no começo, também era machista. E dos grandes.

A gente já sabe: teve caso com a própria cunhada, que era a Fábia 
mulher do Ulisses. Teve caso com a governanta. Teve caso com a cozinheira, que hoje é a fantasminha, o amor de Otoniel pai da Adrina,que aparece pra ele.

Ele era o patriarca que se achava no direito de ter todas as mulheres da casa. O dono da fazenda moderno. Morreu como santo, mas viveu como coronel. O machismo raiz da família toda começou nele.

*5. OTONIEL - O macho que prende com amor condicional*



E tem o Otoniel (Tony Ramos), o avô querido por todos. Ama o neto Mau Mau (João Victor Gonçalves), mas não aceita quem o neto é.

Mau Mau é um menino doce, só quer ser ele mesmo. E o que ouve do avô? "Cadê roupa de homem?" só porque estava com uma baby tee da irmã.

É o machismo mais comum no Brasil: "Eu te amo, mas só se você for do meu jeito". Como o próprio ator contou, recebe mensagem todo dia de gente dizendo "aconteceu comigo também"
.Por pretensa proteção quer dominar a todos não aceita que a neta queira justiça e não aceita que a filha se relacione com o amigo e não aceita a ajuda financeira da neta.


*No fim, ninguém cuida. Todo mundo manipula e oprime.

O pai condena a filha Adriana julgando que ela "aprendeu coisa errada na cadeia". O marido prende a esposa na parede. O patrão prende a funcionária no assédio. O viciado prende a mulher na mentira. O avô prende o neto no armário. E o morto prendia todas no desejo dele.

É por isso que "Quem Ama Cuida" incomoda. Não é sobre a família Brandão. É sobre a nossa família.

É o Brasil que ainda acha que amar é trancar dentro de casa.

CORDEL: O CURRAL ELEITORAL





CORDEL DO CURRAL ELEITORAL


Eu vou contar num cordel
Que não é de fantasia
É a história do Brasil
Da nossa democracia
Onde o povo é como gado
Tocada na correria.

No tempo do coronel
De chapéu e de chicote
O voto era de cabresto
Amarrado no bigode
Quem não votasse no dono
Perdia até o capote.

O curral era de pau
De fazenda e de porteira
O vaqueiro era o capanga
Com a peia na ladeira
E o povo, feito bezerro
Seguia a mesma fileira.

Como cantou Zé Ramalho
Naquele verso certeiro:
"Oh, fazendeiro do ar,
Óh, admirável gado novo!"
O povo marcado a ferro
No curral do poder novo.

Disseram que o coronel
Morreu, foi enterrado
Mentira bem contada
Pro povo enganado
Ele só trocou de roupa
Botou terno alinhado.

Antes era o fazendeiro
Dono da terra e do pão
Hoje é dono de sobrenome
Dono de televisão
Dono de rede social
Dono de fundação.

O curral não é mais de pau
É de tela e de mentira
É curral de WhatsApp
De promessa que não vira
O gado hoje é digital
Mas a marca ainda vira.

Antes pra ganhar o voto
Era saco de farinha
Um par de bota usada
E uma casa de taipa fininha
Hoje é emenda e é cargo
E auxílio que caminha.

O vaqueiro de antigamente
Virou cabo eleitoral
Com lista na prancheta
E discurso imoral
Tocando o povo pro voto
Como quem toca animal.

E o povo, meu Deus do céu,
Vai tudo amontoado
Com medo de perder tudo
Medo de ficar de lado
Vota com raiva e com medo
Sem nunca ser escutado.

É sempre os mesmos nomes
De pai pra filho e neto
Sarney, Calheiros, Bolsonaro
Lula e seu afeto
O curral tem dono certo
E o gado nunca tá quieto.

Dizem: "É democracia,
Você é livre pra escolher!"
Que escolha livre é essa
Se só tem dois pra valer?
Se o curral tá fechado
E não deixa outro nascer?

Tudo em nome do dinheiro
Tudo em nome do poder
O grandão lá de cima
Só quer permanecer
E o pequeno aqui embaixo
Só quer sobreviver.

Acorda, meu povo nordestino
Meu povo brasileiro
Você não nasceu pra ser gado
Nem pra ser prisioneiro
Seu voto não é boiada
Pra enriquecer fazendeiro.

Quebra a cerca desse curral
Abre os olhos pra enxergar
Pergunta quem te toca
Pra onde vão te levar
Se é pro bem do seu filho
Ou pro bolso de quem tá lá.

Na hora da eleição
Pense bem, cidadão
Quem te trata como gente
E quem te trata como gado
Quem te quer acordado
E quem te quer curralado.

Que esse cordel bem grande
Em forma de livrinho
Acorde quem tá dormindo
No meio do caminho
Que o povo deixe de ser gado
E vire dono do ninho.

*FIM*


FILMES DE TEIXEIRINHA




*TEIXEIRINHA - BIOGRAFIA*

*Nome:* Vítor Mateus Teixeira
*Nascimento:* 3 de março de 1927 - Rolante (distrito de Mascaradas), RS
*Falecimento:* 4 de dezembro de 1985 - Porto Alegre, RS, aos 58 anos
*Apelido:* O Rei do Disco.

Filho de Saturno Teixeira e Ledurina Mateus Teixeira, teve uma infância muito sofrida. Ficou órfão de pai aos 6 anos e de mãe aos 9 anos. 

A história da mãe virou a música mais famosa dele. A mãe sofria de epilepsia, teve um ataque e caiu sobre uma fogueira que tinha feito no quintal para queimar folhas. Essa tragédia inspirou *"Coração de Luto"*. 

Sem ter onde ficar, saiu pelo mundo fazendo de tudo: carregou malas em pensão, entregou viandas, vendeu jornal e doces na rua. Aos 18 anos trabalhou no DAER como operador de máquinas. 

Começou a cantar nas rádios do interior - Lajeado, Estrela, Rio Pardo, Santa Cruz do Sul. Em Santa Cruz conheceu Zoraida Lima Teixeira, com quem casou em 1957 e teve 4 filhas: Nancy Margareth, Gessi, Fátima e Márcia. Depois foram morar em Passo Fundo, onde tinham uma barraquinha de "Tiro ao Alvo" e à noite ele cantava na Rádio Municipal. 

Em 1959 gravou o primeiro disco, 78 RPM com "Xote Soledade" e "Briga de Batizado". Mas o estouro veio em 1960/61 com *Coração de Luto*, apelidada pelo povo de "Churrasquinho de Mãe". Foi o primeiro artista a vender 1 milhão de cópias de um disco com uma só música, e esse compacto chegou a vender 6 milhões, o mais vendido do Brasil até hoje. 

Daí virou o Rei:

- Mais de 1.200 músicas compostas e 758 gravadas
- Mais de 70 discos, 18 milhões de cópias vendidas
- Fez sucesso até na Europa e África
- Teve programa de rádio todo dia: _Teixeirinha Amanhece Cantando_

Em 1961 conheceu em Bagé a acordeonista *Mary Terezinha*, que foi sua parceira de palco e de cinema por mais de 20 anos. 
*No cinema:*
Escreveu o roteiro de _Coração de Luto_ em 1966, lançado em 1967, recorde de bilheteria. Em 1970 fundou a *Teixeirinha Produções Artísticas* e produziu 10 filmes. d180e54a

Filmografia:
1. Coração de Luto (1967)
2. Motorista Sem Limites (1970)
3. Ela Tornou-se Freira (1972)
4. Teixeirinha a 7 Provas (1973)
5. O Pobre João (1974)
6. A Quadrilha do Perna-Dura (1975)
7. Carmen a Cigana (1976)
8. Na Trilha da Justiça (1977)
9. Gaúcho de Passo Fundo / Meu Pobre Coração de Luto (1978)
10. Tropeiro Velho (1980)
11. A Filha de Iemanjá (1981)

Faleceu em 1985 e foi velado no Salão Nobre do Grêmio, ao som da música que ele mesmo pediu: "A Morte Não Marca Hora".



O POBRE JOAO



CORAÇÃO DE LUTO


7 PROVAS

o

MOTORISTA SEM LIMITES



CARMEM  A CIGANA


MEU POBRE CORACAO DE LUTO




10 de outubro de 2026

CORDEL : A FARDA POR BAIXO DO TERNO





Vou contar numa história
que o  não esqueceu,
que no Brasil a liberdade
nunca se aconteceu.
Mudou bandeira e nome,
mas o dono não mudou,
o terno é novo, o chicote
é o mesmo que nos prendeu.


No tempo do engenho
era o senhor de lá,
depois veio o coronel
do café pra mandar.
Hoje veste paletó
com cheiro de capital,
é banco, é latifúndio,
mas o feitor é igual.

E quem segura a porteira
dessa casa-grande em pé,
nunca foi urna nem voto,
nunca foi voto de fé.
Foi bota, foi coturno,
foi farda e foi fuzil,
sempre que o povo gritou,
mandaram calar o Brasil.

Em mil oitocentos e
oitenta e nove então,
quatrocentos soldados
tomaram a nação.
Derrubaram o Império
sem o povo pra ver,
o povo bestializado
sem nada entender.

Deodoro fechou Congresso,
Floriano mandou matar,
e desde ali o Brasil
aprendeu a se curvar.
Toda vez que o fazendeiro
se sentia ameaçado,
chamava o seu general
que vinha armado e fardado.

Canudos quis um pedaço
de chão pra plantar,
em noventa e sete o Exército
foi lá pra massacrar.
Vinte e cinco mil almas
tombaram no sertão,
porque pediram terra
levaram canhão.

João Cândido, marinheiro,
negro de coração,
disse chega de chibata
naquela embarcação.
Em mil novecentos e dez
foi a Marinha atirar,
apontando canhão
pra quem ousou falar.

A Coluna que marchava
pedindo eleição,
andou vinte e cinco mil
quilômetros no chão.
Quem perseguiu foi farda,
foi bota de patrão,
quem queria voto livre
levou perseguição.

O presidente de terno
que é da direita civil,
nunca governa sozinho
nesse nosso Brasil.
Ele é feitor bem vestido,
quem manda é o quartel,
quem cobra a conta no morro
é soldado cruel.

Juscelino sonhou grande,
fez Brasília no chão,
trouxe fábrica e estrada,
deu ao povo ambição.
Mas sofreu dois golpes,
tentaram lhe calar,
e morreu numa curva
que ninguém soube explicar.

Jango queria reforma,
terra pra trabalhar,
voto pra analfabeto,
povo se levantar.
Em sessenta e quatro
o tanque foi pra rua,
derrubaram o presidente
com a mentira crua.

E toda vez que o povo
tenta se organizar,
que pede escola e saúde,
casa pra morar,
vem o carimbo sujo,
o truque mais vilão,
gritam logo: COMUNISTA!
pra calar a discussão.

Jango não era vermelho,
era trabalhador,
quem pede pão e teto
não é agitador.
Mas a direita escravocrata
que nunca quis dividir,
chama tudo de comunismo
pra não ter que discutir.

Por isso dá um medo
quando a direita vem,
não é medo de voto,
de quem pensa diferente também.
É medo de memória,
de quem já viu fechar,
mil oitocentos e oitenta e nove,
trinta e sete e sessenta e quatro a nos caçar.

Três vezes apagaram
a luz desse cinema,
vinte e uma vezes o povo
riscou fósforo e pena:
Canudos, Vacina,
Chibata e Contestado,
os dezoito do Forte,
a Coluna ao seu lado,
trinta e dois, Cem Mil,
Diretas e Pintadas,
o povo nunca aceitou
as porteiras fechadas.

Nós não somos escravos
porque queremos ser,
fomos escravizados
por não nos deixarem viver.
Botaram corrente no pé,
agora no contracheque,
no preço do arroz,
no aluguel que não seque.

Na eleição que vem vindo
preste muita atenção,
não olhe só o terno,
olhe a bota no chão.
Veja quem tá por baixo
do paletó bem cortado,
se é povo que sustenta
ou se é farda do passado.

Que a urna não seja
enfeite no salão,
mas porta de saída
dessa velha escravidão.

A LITERATURA E O FEMINICIDIO




*O MACHISMO DE 1862 E O MACHISMO DE HOJE - É A MESMA COISA*

Tudo que eu andei estudando sobre José de Alencar, sobre o Camilo Castelo Branco, sobre o Alexandre Dumas pai e o Dumas filho, me fez ver uma coisa: o machismo de hoje não inventaram agora não. Ele já estava todo escrito em 1862.

Vamos fazer um apanhado geral.

Naquela época de 1800 e pouco, o homem mandava em tudo. A mulher rica não trabalhava, não saía na rua sozinha, não votava, não tinha dinheiro dela. Ela era propriedade do pai e depois propriedade do marido. O livro era o espelho disso.

*José de Alencar* no Brasil fez três tipos de mulher pra gente entender o machismo brasileiro da época:




1.  *A Diva e A Viuvinha* - a virgem. Essa podia ser feliz. Era a moça pura, branca, rica, que guardava a virgindade pro homem certo. Essa o homem perdoava, casava e dava final feliz. É o sonho do homem machista: a mulher intocável esperando por ele.

2.  *A Lucíola e a Senhora* - a prostituta e a mulher que compra o homem. A Lucíola foi prostituta porque o pai ficou doente, teve que vender o corpo pra salvar a família. A Senhora, a Aurélia, foi humilhada pobre e ficou rica e comprou o homem que amava. As duas, pra poderem ser felizes, tem que passar o resto da vida pedindo perdão, se humilhando, se lavando, dizendo que são indignas. O homem perdoa. Sempre o homem que perdoa.

3.  *O Guarani e Iracema* - a índia. A Iracema larga a tribo dela, larga o pai, larga a religião dela, por amor ao português. E morre. Ela tem que morrer pra nascer o filho brasileiro do homem branco. A mulher sempre se sacrifica.




Isso é o Alencar. Ele escrevia só pro Brasil, num Brasil onde 90% não sabia ler, onde mulher não comprava livro. Quem comprava era homem. Então ele escrevia o que o homem queria sonhar.

Agora olha o *Camilo Castelo Branco* em Portugal, com o *Amor de Perdição*. É a mesma coisa. O pai não deixa a filha casar com quem ela ama, tranca ela em casa, obriga ela a casar com outro. Se ela desobedece, a família mata ela socialmente. Ela fica presa num convento até morrer. Naquela época o feminicídio não era só faca não, era social. Trancava a mulher, chamava de louca, mandava pro convento, deixava morrer lá dentro. Quantas não morreram assim?

Na França a coisa já era mais avançada. O *Victor Hugo* com Notre-Dame de Paris e Os Miseráveis, e o *Alexandre Dumas Pai* com Os Três Mosqueteiros e Conde de Monte Cristo, eles já escreviam pra família toda ler junta na sala. O homem gostava da aventura, a mulher gostava do romance. Já tinha mulher rica lendo em Paris e em Londres.




E o *Alexandre Dumas Filho*, o Dumas Filho da *Dama das Camélias*, ele fez igualzinho o Alencar depois copiou. A Dama das Camélias, a Marguerite, é prostituta de luxo em Paris. Ela ama um rapaz pobre. Ela larga tudo por ele. Mas a sociedade não deixa. Ela tem que morrer de tuberculose, sozinha, tossindo sangue, pra pagar o pecado de ter sido prostituta. O Alencar leu isso em 1848 e em 1862 copiou e fez a Lucíola. Só que aqui no Brasil, que era mais católico, mais careta, ele teve que dar uma desculpa: a Lucíola não foi puta porque quis luxo, foi porque o pai estava doente. Então ela pode viver, mas tem que viver pedindo desculpa pro homem o resto da vida.

Olha a diferença do machismo que eu vejo:

O machismo francês de 1848 mata a mulher de tuberculose no livro.
O machismo português de 1862 tranca a mulher no convento até ela morrer de tristeza.
O machismo brasileiro de 1862 deixa ela viver, mas só se ela se humilhar a vida toda pro homem perdoar ela.

E o machismo de hoje, de 2026?

É o mesmo. Só mudou a doença.

Hoje a mulher trabalha, estuda, tem dinheiro dela, sai sozinha, mas o homem ainda acha que ela é propriedade dele. Naquela época, se a Iracema desobedecia o pai, morria. Se a Teresa do Amor de Perdição desobedecia, ia pro convento. Se a Lucíola tinha sido de outro homem, tinha que pedir perdão pro Paulo a vida toda.

Hoje, se a mulher larga o homem, se ela não quer mais, se ela tem outro, o cara não aceita. É o mesmo pensamento do pai da Teresa em 1862: "se não é minha, não vai ser de ninguém". Só que hoje ele não tranca no convento, ele mata. É o feminicídio que a gente vê todo dia no jornal.

O que mudou de 1862 pra hoje foi a lei, foi o trabalho da mulher, foi a liberdade dela. O que não mudou foi a cabeça de muito homem. Continua achando que a mulher tem que ser a Diva virgem que espera ele, ou a Lucíola que tem que pedir perdão, ou a Iracema que tem que morrer por ele.

Por isso que ler José de Alencar, Camilo Castelo Branco, Dumas, não é só historinha velha não. É pra gente ver que o feminicídio de hoje já estava escrito nos livros de 1862. Naquela época matavam a mulher de vergonha, de convento, de tuberculose. Hoje matam de faca e de tiro. Mas a raiz é a mesma: o homem achando que é dono da mulher.

E enquanto a gente não entender isso, vai continuar morrendo Iracema, vai continuar morrendo Lucíola, vai continuar morrendo Dama das Camélias todo dia no Brasil.