SÉRIE MITOLOGIA GREGA - A HISTORIA DE ECO E NARCISO
*Prólogo - Dois Castigos*
Na mitologia grega, os deuses raramente puniam com a morte. Eles puniam com a eternidade. Faziam você viver para sempre dentro do seu próprio erro.
Foi assim com Eco e com Narciso.
*Capítulo 1 - Eco, a ninfa que falava demais*
Eco era uma Oréade, uma ninfa das montanhas, filha do ar e da pedra. Linda, falante, inteligente. Zeus gostava dela porque ela o ajudava. Quando Hera desconfiava que Zeus estava com outras ninfas, Eco distraía Hera com conversas longas, histórias intermináveis, dando tempo para Zeus fugir.
Quando Hera descobriu o truque, não ficou com raiva de Zeus - os deuses nunca ficam com raiva de Zeus. Ficou com raiva de Eco.
E lançou a maldição: "Você que tanto fala, a partir de agora só falará por último. Você nunca mais terá a primeira palavra. Só poderá repetir a última palavra que os outros disserem."
Eco foi condenada a não ter voz própria. A ser apenas o eco da voz dos outros. Envergonhada, fugiu para as cavernas e para as florestas, onde até hoje, se você gritar, ela te responde.
*Capítulo 2 - Narciso, o menino que nasceu bonito demais*
Longe dali, às margens do rio Cefiso, o deus-rio se apaixonou pela ninfa Liríope e a violentou. Dela nasceu um menino de uma beleza que nunca se tinha visto no mundo.
Liríope, com medo, foi consultar o adivinho cego Tirésias, o único homem que já tinha sido mulher e que sabia o futuro.
"Meu filho viverá muito?" - ela perguntou.
Tirésias respondeu: "Sim, se nunca conhecer a si mesmo."
O menino se chamava Narciso.
Ele cresceu. E a profecia se cumpriu ao contrário: todos que o conheciam se apaixonavam por ele, homens e mulheres, ninfas e mortais. Mas ele não amava ninguém. Achava todos indignos. Seu coração era de pedra fria, polida como um espelho.
*Capítulo 3 - O encontro*
Um dia, Narciso foi caçar veados nas montanhas com seus amigos. Se perdeu do grupo. E Eco, que vivia escondida naquela montanha, o viu.
Foi amor à primeira vista. Pela primeira vez desde a maldição, Eco quis falar. Quis dizer: "Que lindo você é, fica comigo."
Mas não podia. Não tinha a primeira palavra.
Narciso, perdido, gritou: "Tem alguém aqui?"
Eco, feliz por poder finalmente responder, repetiu: "Aqui! Aqui! Aqui!"
"Venha!" - gritou Narciso.
"Venha! Venha! Venha!" - respondeu Eco, e saiu de trás das árvores, de braços abertos.
Narciso tomou um susto. Viu aquela ninfa apaixonada correndo para ele e sentiu nojo.
"Me deixa! Prefiro morrer do que te dar --meu amor!" - gritou ele.
-Eu te odeio
Eco só pôde repetir a última parte, chorando: "Eu te odeio...
Rejeitada, Eco voltou para a caverna. Não comeu, não bebeu. De tristeza, foi definhando, definhando, até que seu corpo virou pedra e só sobrou a voz. A voz que até hoje mora nas montanhas.
*Capítulo 4 - A vingança das ninfas*
Os deuses viram aquilo. As outras ninfas que também tinham sido rejeitadas por Narciso foram pedir justiça à Nêmesis, a deusa da vingança justa, da retribuição.
Nêmesis não perdoou. Ela decretou: "Narciso, já que você nunca amou ninguém, você vai amar como ninguém nunca amou. Mas vai amar alguém que nunca poderá ser seu."
No dia seguinte, com muito calor da caçada, Narciso chegou a uma fonte de água cristalina no bosque, uma fonte onde nunca nenhum animal, nenhum pastor tinha bebido. A água era como um espelho virgem.
Ele se abaixou para beber.
E viu.
Viu um rosto lindo dentro da água. Pela primeira vez na vida, conheceu alguém digno do seu amor. Ele mesmo.
"Que belo jovem!" - ele disse para o reflexo. O reflexo mexeu os lábios junto.
Ele se apaixonou perdidamente. Ficou ali, de joelhos, horas, dias, tentando tocar aquele jovem, que fugia quando ele tocava a água. Tentava abraçar e só abraçava água.
Tirésias tinha razão: ao conhecer a si mesmo, sua vida acabou.
Narciso não comia, não dormia, não saía da beira da fonte. Chorava e o reflexo chorava com ele. O amor que ele sentia era tão grande que o consumia.
Até que, fraco, ele entendeu: aquele era ele mesmo. Não poderia nunca ter aquele amor.
Deitou-se na margem e morreu de amor por si. Outros dizem que se afogou tentando se beijar. Quando as ninfas foram buscar seu corpo para enterrar, no lugar dele havia uma flor branca e amarela, de cabeça baixa, olhando para a água para sempre.
A flor de Narciso.
*Capítulo 5 - O Significado*
Essa é a história mais atual de toda a mitologia grega.
*1. Eco é o amor que não tem voz própria.* É quem vive para repetir o outro, quem perde a própria identidade para agradar. Hoje chamamos de ecoísmo: a pessoa que só existe em função do amor do outro, que não tem mais opinião, desejo, primeira palavra. E que no fim, de tanto se anular, vira só pedra e voz. Eco morreu porque amou alguém que não a viu.
*2. Narciso é o amor que só tem a si.* É a vaidade que vira prisão. Ele não conseguia amar ninguém porque ninguém era tão perfeito quanto a imagem que ele tinha de si mesmo. Quando finalmente amou, amou a única pessoa que nunca poderia corresponder: ele mesmo. É o castigo perfeito. O narcisista não é quem se ama demais, é quem não consegue amar ninguém, nem a si de verdade, só a sua imagem.
Os gregos colocaram os dois juntos de propósito. Uma que só diz o que o outro diz, e um que só escuta a si mesmo. Um casal impossível.
E o lago onde ele morreu é o símbolo: toda pessoa vaidosa precisa de uma água parada, sem profundidade, para se refletir. Num rio corrente, num mar agitado, o reflexo se quebra. O narcisista precisa de gente parada, como Eco, para se admirar.
É por isso que até hoje, quando alguém só fala de si, chamamos de narcisista. E quando alguém numa caverna repete nossa última palavra, lembramos de Eco.
Dois amores que deram errado do mesmo jeito: um por amar pouco a si, outro por amar demais.
Imagina: Eco ama aquele cara mais que tudo. O sonho dela é dizer "eu te amo". E o que Narciso grita pra ela é "eu te odeio".
E ela, por causa da maldição, não pode responder, não pode se defender, não pode dizer "não, por favor". Ela é obrigada a repetir a última palavra. Ela tem que dizer com a própria boca "eu te odeio".
Pra quem ama, ter que dizer "eu te odeio" pra pessoa amada é pior que morrer. É como se ela tivesse que concordar com a própria rejeição. Ter que falar a frase que mata ela mesma.
Por isso ela não aguenta. Ela não morre porque ele disse. Ela morre porque ela teve que dizer. Foi a voz dela mesma repetindo o ódio que acabou com ela.
Já NARCISO, Não é que ele se amava demais. É que ele tinha MEDO de amar.
O Narciso não era forte, ele tinha medo. Medo de sofrer, medo de perder, medo de não ser amado de volta. Aí o que ele faz? Bota um escudo. Diz pra todo mundo "vocês não são dignos de mim". Não é que ele se achava demais, é que se ele falar que os outros não prestam, ele não precisa tentar.
E esse escudo que era pra proteger, vira a prisão.
Porque ninguém consegue tocar nele. Eco tentou tocar e ele não deixou. As ninfas tentaram e ele não deixou. No final, quem ele deixou tocar? Só ele mesmo, no reflexo. Que não toca de volta.
E aí se morre na solidão. Cercado de gente que queria amar ele, mas sozinho porque achou que ninguém merecia.
"É um escudo que ninguém chega perto da gente, porque a gente se ama. Esse amor desmedido por nós mesmo faz com que a gente não consiga deixar com que ninguém nos toque"
O amor é fogo que arde se ver e ferida que sangra sem doer.
Se alguém quer ser amado tem que se permitir ser tocado.
Pode ser acariciado mas também pode ser ferido.






