A HISTÓRIA DAS SEREIAS
AS SEREIAS - O CANTO QUE ATRAVESSOU 3 MIL ANOS DE HISTÓRIA
Dizem que todo marinheiro já ouviu uma. Dizem que todo homem apaixonado já viu uma. A sereia nunca existiu e, por isso mesmo, nunca deixou de existir. Ela mora exatamente onde a gente não alcança: entre a terra e o mar, entre o desejo e o medo.
Essa é a história completa dela.
*1. O BERÇO: A GRÉCIA. E ELAS NÃO TINHAM RABO DE PEIXE*
A primeira sereia da história não nadava. Ela voava.
Na Odisseia, escrita por Homero há quase 3 mil anos, as Sereias eram três irmãs - Partênope, Leucósia e Lígia - metade mulher, metade pássaro. Não viviam na água. Viviam num rochedo no meio do mar Mediterrâneo.
O poder delas não era a beleza. Era a voz. Elas cantavam e prometiam ao marinheiro aquilo que ele mais queria ouvir: todos os segredos do mundo, o futuro, o passado. O homem pulava do barco para ouvir melhor e morria afogado. É daí que vem a expressão que usamos até hoje: "canto da sereia".
Ulisses, o herói grego, foi o único que ouviu e sobreviveu. Mandou os marinheiros taparem os ouvidos com cera e se amarrou no mastro do navio. Sofreu, gritou, pediu para soltarem, mas ninguém soltou. Ele ouviu o canto proibido e voltou para contar.
O rabo de peixe só apareceu 1.500 anos depois, na Idade Média, quando os padres juntaram a lenda grega das mulheres-pássaro com os Tritões romanos e com as deusas dos rios.
*2. A MÃE DE TODAS: MAMI WATA, A SEREIA AFRICANA*
Se a sereia grega é a mais antiga, a africana é a mais poderosa.
Na África Ocidental, desde o século XV, se cultua Mami Wata - Mãe D'Água. Ela é uma mulher negra lindíssima, de cabelos longos e cacheados, com rabo de peixe enorme, toda enfeitada de joias, espelhos e conchas. Mora nos rios, nas cachoeiras e no mar.
Ela não mata. Ela escolhe. Leva o homem que ela gosta para viver com ela no fundo, onde ele fica rico e sábio. Mas se ele a trair, perde tudo.
Quando os africanos foram trazidos escravizados para o Brasil, trouxeram Mami Wata na memória. Aqui, ela encontrou o rio Amazonas e se misturou com outra lenda que já existia aqui.
*3. A NOSSA SEREIA: IARA, A LOIRA DO RIO QUE VIROU MORENA*
A Iara é brasileira. Nasceu aqui.
Antes de Portugal chegar, os índios Tupi já contavam a história do Ipupiara - o homem-peixe que vivia nos rios e afogava os pescadores. Era um monstro, não era bonito.
Quando o português contou a lenda da sereia europeia e o africano contou a de Mami Wata, as três histórias se abraçaram e nasceu a Iara.
No começo, os primeiros cronistas diziam que a Iara era loira, de olhos verdes - cópia da sereia europeia. Foi Monteiro Lobato quem mudou tudo.
Em 1917, no livro *"O Saci"* e depois em *"Geografia de Dona Benta"*, Monteiro Lobato disse: "Não! Nossa sereia não é loira. Nossa sereia é morena, de cabelos pretos, olhos castanhos, cor de gente brasileira. Ela mora no rio Tapajós".
Lobato nacionalizou a sereia. Tirou ela do mar frio da Europa e colocou no rio quente da Amazônia. Deu a ela o boto como companheiro. A partir dele, a Iara que conhecemos hoje - morena, de cabelos longos que penteia com pente de ouro, cantando na beira do rio ao entardecer para levar o pescador - ficou definitiva.
Câmara Cascudo, nosso maior pesquisador de folclore, confirmou: a Iara é a sereia mais romântica do mundo, porque ela não mata por fome. Ela se apaixona.
*4. 30 SEREIAS PELO MUNDO - UM ATLAS DO ENCANTAMENTO*
Existem mais de 30 tipos catalogados. Cada povo criou a sua:
*As 10 mais famosas:*
*1.¹ Ningyo (Japão):* Tem rosto de macaco, corpo de peixe com escamas douradas. Quem comer sua carne vive 800 anos. Mas quem a pesca tem uma tempestade terrível. É a sereia da imortalidade.
*2. Selkie (Escócia e Irlanda):* Não tem rabo de peixe. É uma foca que tira a pele na lua cheia e vira mulher linda. Se um homem roubar sua pele, ela tem que ficar casada com ele. Mas vive chorando com saudade do mar.
*3. Merrow (Irlanda):* Usa um gorro mágico chamado "cohuleen druith". Sem ele, não pode voltar para o fundo. Os homens roubam o gorro para casar com ela.
*4. Rusalka (Rússia):* Sereia de rio, de cabelos verdes. São almas de moças que morreram afogadas por amor. No mês de junho, saem para dançar na floresta e levam os homens.
*5. Iemanjá (Brasil):* Não é sereia, é Orixá. Mas no sincretismo virou Rainha do Mar. Muitos confundem com Iara. Iara é do rio, Iemanjá é do mar.
*6. La Sirena (México):* Canta nos lagos. Dizem que foi uma moça que desobedeceu a mãe e foi castigada.
*7. Mami Wata (África):* Já falamos. A mãe de todas as sereias negras.
*8. Sirène (França):* Na Bretanha, elas avisam naufrágios com seu choro.
*9. Havfrue (Dinamarca):* Foi a que inspirou Hans Christian Andersen a escrever A Pequena Sereia, em 1837.
*10. Iara (Brasil):* A nossa.
*Outras raras:* Ceasg (sereia com rabo de salmão), Sirena Chilota (do Chile, com cabelos dourados), Aicaya (do Caribe, vingativa), Finfolk (da Noruega, que rapta noivos).
*5. AS SEREIAS QUE FORAM PARA O CINEMA*
O homem tanto contou a lenda que a levou para a tela.
O filme mais antigo é de 1904, de Georges Méliès. Mas as que marcaram:
*A Pequena Sereia (1989 - Disney):* Ariel, ruiva, que troca a voz por pernas. É a versão mais doce da história trágica de Andersen, onde na original a sereia vira espuma do mar.
*Splash - Uma Sereia em Minha Vida (1984):* Com Daryl Hannah. A sereia loira que se apaixona em Nova York.
*A Forma da Água (2017):* Ganhou o Oscar. Não chama de sereia, mas é um homem-peixe. A prova de que ainda nos apaixonamos por seres da água.
*Piratas do Caribe 4 (2011):* Mostrou as sereias mais fiéis à lenda grega: lindas, cantando, e de repente viram monstros que afogam marinheiros.
*6. POR QUE A GENTE AINDA ACREDITA?*
Cristóvão Colombo jurou que viu 3 sereias perto do Haiti em 1493. Escreveu no diário: "não eram tão bonitas como pintam". Hoje sabemos que eram peixes-boi.
Nenhum marinheiro inglês deixava mulher entrar no barco até 1950. Dizia que o barco ficava com ciúme e as sereias se vingavam.
No fundo, a sereia nunca foi sobre peixe. Foi sobre saudade.
É o que Vicente Celestino cantava: "Saudade é desejo de estar perto de quem longe está de nós". A sereia é exatamente isso. É o amor impossível entre dois mundos que nunca podem ficar juntos - o homem da terra e a mulher do mar.
Por isso ela canta. E por isso a gente ouve.










