HISTÓRIA E CURIOSIDADES DE PAQUETÁ
*PAQUETÁ - A ILHA ONDE O TEMPO DESCE DA BARCA*
Quem vai a Paquetá pela primeira vez leva um susto que não está nos guias de turismo. O susto é o silêncio.
Você sai da Praça XV, no centro do Rio, no meio daquele vozerio de camelô, de buzina, de gente correndo atrás de ônibus, entra na barca da CCR. São 70 minutos de travessia pela Baía de Guanabara. O Rio vai ficando para trás, o Pão de Açúcar vai virando miniatura, e de repente a barca encosta numa ilha em formato de oito, com 1,2 quilômetro quadrado e 8 quilômetros de orla. Quando você pisa, cadê o carro? Não tem.
Em Paquetá não circulam carros particulares. É proibido. A ilha anda de bicicleta, anda a pé, anda de charrete. Por isso parece que alguém desligou o relógio em 1950 e esqueceu de ligar de novo.
E essa é a primeira história que a ilha conta.
O nome vem do tupi. Paquetá quer dizer "muitas pacas". Foi registrada pela primeira vez pelo francês André Thevet, em dezembro de 1555, quando os franceses ainda sonhavam com a França Antártica aqui na Guanabara. Na época a ilha era dos índios Tamoios. Foi ali que morreu o grande chefe Guaixará, numa batalha entre Tamoios e franceses contra portugueses e Temiminós. Os portugueses venceram, expulsaram os franceses, e em 1565, no mesmo ano em que Estácio de Sá fundava o Rio, a ilha foi cortada em duas sesmarias. A parte de cima, o Campo, foi para Inácio de Bulhões. A parte de baixo, a Ponte, para Fernão Valdez.
E até hoje Paquetá é dividida assim. Campo contra Ponte. No futebol, no carnaval, na festa de São Roque. É uma rivalidade de 460 anos que ainda desfila.
A ilha só ficou famosa mesmo quando um rei se apaixonou por ela. Dom João VI vinha para cá fugir da corte, tomar banho de mar, que os médicos diziam que curava tudo. Depois dele veio o José Bonifácio, o Patriarca da Independência, que teve casa aqui. Depois veio uma linha regular de barcas, em 1838, e a ilha virou o veraneio da corte.
Mas o que colocou Paquetá de vez no mapa do Brasil foi um livro.
Em 1844, um rapaz de 24 anos chamado Joaquim Manuel de Macedo, médico, jornalista, professor, publicou um romance que o Brasil nunca tinha visto: *A Moreninha*. Foi o primeiro romance romântico da nossa literatura. Virou best-seller na corte. Todo mundo queria saber quem era aquela Carolina da ilha, morena, de olhos negros, que fazia o estudante Augusto perder a cabeça.
O livro não cita Paquetá nenhuma vez no texto original. Mas o povo jurou que a história tinha acontecido lá. Diziam que Macedo escreveu hospedado numa pensão perto da praia, olhando para uma pedra. E a pedra ficou famosa.
*A PEDRA DA MORENINHA
No final da Praia José Bonifácio, andando para a esquerda, você chega na Praia da Moreninha. Ali, depois de um pequeno túnel escavado no morro e de uma pontinha de madeira entre duas rochas, está ela. A Pedra da Moreninha.
A lenda que o povo conta até hoje, e que todo guia de Paquetá repete, é que a jovem Carolina ficava sentada ali, com os pés na água, esperando o seu Augusto chegar remando pela baía. Se é verdade ou invenção de leitor apaixonado, ninguém sabe. Mas sente ali. De lá você vê o Rio inteiro, vê Niterói, vê a casa do governador na Ilha de Brocoió, vê o mar batendo calmo. É impossível não entender por que um escritor inventaria um amor ali.
Essa pedra, com a Casa da Moreninha logo atrás, com a Praia da Moreninha, é o coração literário da ilha. É por causa dela que Paquetá nunca foi só uma ilha.
O QUE NÃO SE PODE PERDER QUANDO VOCÊ FOR .
Anota, porque Paquetá não se faz correndo. Tem que ser com calma, como crônica de jornal, um capítulo por vez:
*1. O Parque Darke de Mattos:* é o pulmão da ilha. Foi a chácara de um advogado, hoje é um parque com palmeiras imperiais gigantescas, com um mirante que vê a baía toda, com o Solar del Rey, casarão de 1750 onde Dom João VI se hospedava. Hoje é a biblioteca da ilha.
Lá tem a ponte da saudade, é uma ponte de pedra que não tem final. Termina dentro do mar, simbolizando a saudade da onde não se pode chegar.
*2. O Baobá Maria Gorda:*
Paquetá tem 20 baobás, árvores africanas que só existem aqui e no Passeio Público de Fortaleza no Brasil todo. A mais famosa é a Maria Gorda, na Praia dos Tamoios. O tronco é tão grosso que precisam de cinco pessoas para abraçar. Dizem que quem beija o tronco tem sorte no amor. Todo mundo beija.
*3. A Ponte dos namorados *
ponte de pedra sobre o mar, na Praia José Bonifácio. Lugar de promessa de namorado. Dizem que quem atravessa de mãos dadas não se separa.
*4. O Farol da Mesbla ou Farol de Paquetá:* na ponta da Ribeira, construído pela loja Mesbla nos anos 40. Não é um farol oficial da Marinha, mas virou cartão postal. De lá se vê o pôr do sol mais bonito da baía.
*5. A Igreja de São Roque e a Praça de Bom Jesus:* São Roque é o padroeiro da ilha. A festa dele, em agosto, para a ilha inteira. A igreja matriz de Bom Jesus do Monte, de 1763, tem aquele azul e branco de igreja de interior.
*6. A Casa de Artes de Paquetá e a Casa Rosa:* a Casa de Artes, com arquitetura inspirada em Gaudí, tem mirante. A Casa Rosa foi cenário de novela. E espalhados pela ilha, os monumentos pequenos: o busto de Carlos Gomes, o canhão de Dom João VI do século XIX, o coreto da Praça de São Roque, o túmulo do caramanchão.
*7. E o detalhe mais bonito:* o cemitério de pássaros. Paquetá tem o único cemitério de pássaros do mundo que se tem notícia. As crianças da ilha, quando seus passarinhos morriam, enterravam ali, no Parque Darke de Mattos, com lápidinha e tudo.
Paquetá é isso. É uma cidade do interior que por acaso fica dentro do Rio de Janeiro. Onde o carteiro conhece todo mundo pelo nome, onde a bicicleta é táxi, onde o tempo não tem pressa.
Pra você chegar lá tem que pegar a barca, sim. São 70 minutos que lavam a alma. Tem que alugar uma bicicleta, tem que ir até a Pedra da Moreninha, atravessar o túnel, sentar na pedra, olhar a baía e lembrar que um livro inventado há 180 anos ainda faz a gente acreditar que o amor espera.
Quando você for, me conta. Paquetá merece uma crônica ainda maior que essa.













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