CORDEL DA SAUDADE
*CORDEL DA SAUDADE - A PALAVRA QUE DOI E CURA*
Eu vou contar pra vocês
Num verso bem cantado
O que é essa tal saudade
Que deixa o peito apertado
Palavra pequena e doce
Mas de espinho perfumado.
Saudade é flor com espinho
Cheirando a dor e amor
É breve na escrita, eu digo,
Mas longa no dissabor
Quem escreve não traduz
O tamanho do seu ardor.
É querer estar bem perto
De quem está longe demais
É um "ai" que sai do peito
Sem saber pra onde vai
Se é suspiro, se é voz
Que o vento leva e traz.
É sorriso com tristeza
É choro de alegria
É a dúvida que maltrata
É a esperança que alivia
É a conta que não fecha
Na matemática do dia.
O poeta já nos ensinou
Num verso de bem-querer:
Saudade é calculada,
Pode crer pra você ver,
Distância multiplicada
Pelo tanto de querer.
Saudade enche os olhos
De um brilho de ardor
É uma dor que é remédio
E remédio que é dor
Tédio que vira tristeza
Tristeza que vira amor.
É ânsia, é suspiro fundo,
Vontade de rever
Quem lá de longe nos olha
Com olho de bem-querer
E a gente conta os dias
Pra esse dia acontecer.
Palavrinha tão pequena
Mas que diz tudo de uma vez
Carrega o mundo inteiro
Numa sílaba talvez
Por ela valeu a pena
Inventar o português.
Se saudade é portuguesa,
É brasileira também,
Mora no peito do povo
De todo que quer bem
Quem nunca sentiu saudade
Nunca amou ninguém.
Saudade de mãe na janela
Esperando na calçada
De pai contando história
Na rede balançada
Do tempo de menino
De chinelo e de nada.
Saudade do interior,
Do cheiro de chão molhado
Do café no fogão a lenha
Do pão de milho assado
Do aboio do vaqueiro
No sertão bem acordado.
Saudade de um amor antigo
Que não soube ficar
De carta que não chegou
De trem que vi partir
Da promessa na estação
De um dia voltar a vir.
Saudade do que não viveu,
Do que podia ter sido
Do abraço que não deu
Do perdão que foi perdido
Do "eu te amo" engasgado
No peito arrependido.
Saudade dói de manhã
Quando o galo canta cedo
Dói de tarde no terreiro
Quando bate o arvoredo
E de noite é companheira
De quem dorme com medo.
Tem saudade que é bonita,
Que dá pra se guardar
Igual retrato na parede
Que a gente vive a olhar
Tem saudade que é faca
Que só serve pra cortar.
Tem saudade de quem foi
E mora lá no céu
De quem virou estrelinha
Num cantinho do véu
A gente olha pra cima
E conversa com o léu.
Saudade de Luiz Gonzaga
Cantando no radinho
De Vicente Celestino
Com aquele vozeirão
Cantando essa palavra
Que é do nosso sertão.
E por fim eu digo a todos
Que estão me escutando:
Saudade não mata, não,
Só vive ensinando
Que quem sente saudade
É porque tá amando.


0 Comentários:
Postar um comentário
Assinar Postar comentários [Atom]
<< Página inicial