CORDEL DO CORONELISMO DA EMOÇÃO
O CORONELISMO DA EMOÇÃO
No sertão da política
Surgiu novo coronel,
Não tem terra, não tem gado,
Não usa chicote cruel,
Mora dentro do peito,
No coração do fiel.
Antigamente era o voto
Na marra, de cabresto,
O coronel mandava,
Era tudo indigesto,
Hoje o povo se amarra
E acha que é honesto.
Botaram no jumento
Uma olheira de paixão,
Ele só vê pra frente,
Não olha pro sertão,
Só enxerga o seu lado,
O resto é confusão.
Se apaixonou pelo homem,
Perdeu logo a razão,
Quem eu amo é perfeito,
É santo, é oração,
Quem eu não amo é diabo,
Não presta, não.
A família do meu lado,
Ah, que família bela!
Ninguém erra, ninguém rouba,
Todo mundo é sentinela,
Deus abençoa todos,
Da mãe até a donzela.
E se a justiça mostra,
Se prova no papel,
O amor grita mais alto:
"Isso é intriga cruel!
É fake news, é inveja,
Do inimigo infiel!"
E o outro faz o mesmo,
Com a mesma devoção,
Defende sua família,
Com a mesma paixão,
Dois lados no espelho,
Na mesma oração.
É o fã-clube virando
Partido e nação,
É a camisa de time
No lugar da razão,
E o Brasil no meio
Pedindo atenção.
Mas me diga, meu povo,
Onde vamos parar,
Se ninguém mais escuta,
Se ninguém quer olhar,
Se o defeito do meu
Eu não quero enxergar?
Eu volto pra peleja
Com verso e com razão,
Pra falar do cabresto
Que mora na emoção,
Que o cordealista cantou
Com o olho do coração.
No tempo do meu avô
O coronel era visível,
Tinha terra, tinha gado,
Tinha capanga temível,
O voto era na marra,
Era tudo impossível.
Hoje o coronel mudou
De endereço e de nome,
Não mora mais na fazenda,
Mora no telefone,
No algoritmo que te cerca
E da razão te consome.
Ele não te obriga,
Ele te faz gostar,
Só te mostra um lado,
Pra você se apaixonar,
Você acha que escolhe,
Mas tá só a obedecer e amar.
É o cabresto invisível,
A razão falou bonito,
Pior que o de couro,
Porque é mais esquisito,
Você acha que é livre,
Mas tá preso e aflito.
Antigamente era partido,
Era convicção,
Eu sou trabalhista,
Com orgulho e paixão,
Hoje acabou partido,
Virou só adoração.
Virou torcida de time,
Flamengo contra Vasco,
Não discute mais ideia,
É xingamento no frasco,
Quem pensa diferente
Já leva logo um cascão.
Botaram no jumento
A olheira pra cegar,
Ele só olha pra frente,
Não pode enxergar,
Tem medo de ver o mundo,
Prefere só marchar.
Tira a olheira, meu povo,
Que o susto é grande demais,
Vai ver que o outro lado
Também tem seus bons rapaz,
Que ninguém é só demônio,
Nem só anjo de paz.
É a virtude seletiva,
A balança de dois pesos,
Se é do meu, eu perdoo,
Acho todos os apreços,
Se é do outro, eu condeno,
Quero ver tudo preso.
Se o meu rouba um pouquinho,
Eu digo: "Fez muito mais",
Se o outro faz o mesmo,
Eu grito: "Prende, rapaz!",
É a mesma medida
Com olhares desiguais.
E aquela barricada
Que a justiça citou,
O povo apaixonado
Nem sequer perguntou,
De onde vem o dinheiro,
Quem é que financiou?
É igual namoro cego,
De moça iludida,
Ganha presente caro,
Fica toda vaída,
Não pergunta de onde vem,
Depois fica ferida.
Na política é igual,
Promessa bonita demais,
"Vou acabar com tudo",
O povo grita: "Capaz!",
Ninguém pergunta como,
Depois chora atrás.
E quem tenta ser meio,
Como a razão faz,
Apanha dos dois lados,
Não tem nunca paz,
Se fala de um, é do outro,
Se cala, é incapaz.
O centro virou traidor,
Ninguém quer escutar,
Quem pondera é chamado
De em cima do muro a estar,
Mas é no meio que o Brasil
Podia se encontrar.
Já faz oito, dez anos
No mesmo cordão,
Dois nomes brigando
No nosso sertão,
Enquanto o país todo
Fica sem direção.
Ninguém discute escola,
Ninguém fala do pão,
Do posto de saúde,
Da nossa educação,
Só discute quem é preso,
Quem é ladrão.
E tem o capitalismo
De ideia que a justiça falou,
Tem gente ganhando dinheiro
Com o ódio que plantou,
Quanto mais raiva você tem,
Mais clique ele lucrou.
Youtuber ganha com raiva,
Político com rancor,
Blog ganha com briga,
Com mentira e com dor,
A paz não dá dinheiro,
Só dá o desamor.
Por isso eu digo, povo,
Vamos tirar a olheira,
Abrir bem os olhos,
Tirar essa poeira,
Votar com a cabeça,
Não de forma brejeira.
Não existe santo
Em cima de palanque, não,
Existe interesse,
Existe ambição,
Seu voto é sua arma,
Não dê de coração.
Vote perguntando como,
Vote perguntando quando,
Pergunte com que dinheiro,
Pergunte com quem contando,
Não seja jumento cego
Que só vive marchando.
O coronel antigo
Morreu, virou chão,
Mas nasceu outro agora
Dentro da emoção,
Vamos enterrar esse também
Com estudo e reflexão.
Que o Brasil não seja
De um só patrão,
Que seja de ideias,
De prosa e de pão,
Sem burro de olheira,
Sem cabresto, meu irmão!
É tirar a olheira
Que cega o jumento,
É abrir a porteira
Do pensamento,
Escutar o contrário
Sem ressentimento.
É lembrar que na praça
Todo mundo quer ganhar,
Todo discurso bonito
Tem conta pra pagar,
Tem capitalismo de ideia,
Querendo te abraçar.
Não existe santo
Em palanque, meu irmão,
Existe interesse,
Existe ambição,
O seu voto é valioso,
Não dê de coração.
Vote com prudência,
Com coerência também,
Pergunte como faz,
Pergunte com quem,
Tire o amor do meio,
Pense no além.
O coronel antigo
Morreu no sertão,
Mas nasceu outro agora
Dentro da emoção,
Vamos enterrar esse também,
Com voto e reflexão.
Que o Brasil não seja
De um só cordão,
Que seja de ideias,
De pão e de chão,
Sem burro de olheira,
Sem cabresto e sem paixão.

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