CORDEL DO SUPER-HERÓI
*CORDEL DO SUPER-HERÓI DO DIA A DIA*
Vou contar num cordel ligeiro
Essa história pra vocês,
Se eu fosse super-herói
Como seria minha vez,
Imagina só o sujeito
Com poder de três por três.
Ah, se eu fosse Super-Homem
O homem de aço azul,
Eu vinha de Krypton
Numa carreira de luz,
Nasci em berço de estrela
E caí lá no sul.
Eu tinha capa vermelha
Voava que nem avião,
Tinha força de cem homens
E olho de raio e clarão,
Mas meu povo não precisa
De quem voa no sertão.
Ah, se eu fosse o Batman
O morcego da cidade,
Nasci rico em Gotham
Cheio de vaidade,
Tinha carro, tinha grana,
Caverna e maldade.
Eu brigava com coringa
No meio da escuridão,
Mas de que vale a riqueza
Sem ter coração?
Meu povo quer é justiça
E um prato de feijão.
Ah, se eu fosse o Capitão
América forte e valente,
Nasci na guerra grande
Pra defender o continente,
Com escudo e com bandeira
E o discurso decente.
Eu era fraco, franzino,
Virei super soldado,
Mas o meu povo não quer
Herói americanizado,
Quer é força pra luta
Do dia a dia pesado.
Ah, se eu fosse o Homem-Aranha
Que sobe em parede e muro,
Foi picado por aranha
Num destino meio escuro,
Fica pulando nos prédios
Pra livrar do apuro.
Mas eu não subo em prédio,
Eu subo é na ladeira,
Com sacola na mão
E a chinela poeira,
Equilibrando a vida
Na corda derradeira.
Ah, se eu fosse o Thor
Com martelo de trovão,
Filho de Odin, deus grande
Lá da constelação,
Dava grito que o céu tremia
No meio da amplidão.
Mas meu trovão é outro
É o ronco do bujão,
Quando falta o gás em casa
E aperta a situação,
Meu martelo é a enxada,
É foice, é martelão.
Ah, se eu fosse o Lanterna
Verde de luz sem fim,
Ou o Flash ligeiro
Que corre que nem zumbim,
Ou o Pantera Negra
Rei forte de Wakandim.
Mas eu paro por aqui
Com essa imaginação,
Porque agora vou dizer
O que diz meu coração,
Preste atenção, leitor,
Na minha conclusão:
De verdade, sem mentira,
Trabalho de segunda a sábado
Desde que o sol se espira,
Pra sustentar minha família
Que não é pequena, gira.
Não tenho capa, nem voou,
Nem anel de poder,
Meu poder é acordar cedo
Antes do sol nascer,
Enfrentar fila de ônibus
Pra poder viver.
Minha kriptonita é o boleto
Que vence todo mês,
É o preço da feira
Que subiu de uma vez,
É o aluguel, é a escola,
É o pão pra seis, talvez.
Não luto contra monstro
Que sai da televisão,
Luto contra o cansaço,
Contra a desilusão,
Contra o patrão que atrasa
E contra a inflação.
Eu não tenho super-força,
Mas tenho fé em Jesus,
Carrego o mundo nas costas
Como Ele carregou a cruz,
E no fim do dia ainda
Agradeço a luz.
Por isso, meu leitor,
Se ver um homem cansado,
De camisa suada,
De rosto queimado,
Tire o chapéu, respeite:
Ali vai um herói dobrado.
Esse herói sou eu, é você,
É o vizinho, é o irmão,
É o povo nordestino
Que tem no peito um vulcão,
Que não voa, mas não cai,
Que tem pé no chão

0 Comentários:
Postar um comentário
Assinar Postar comentários [Atom]
<< Página inicial