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28 de outubro de 2026

A HISTÓRIA DE PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DAS FLORES



*PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DAS FLORES - A CRÔNICA DE UMA CANÇÃO QUE O BRASIL NÃO DEIXOU MORRER*

O Maracanãzinho está lotado. É noite de 29 de setembro de 1968. No palco do III Festival Internacional da Canção, da TV Globo, um homem magro, de óculos grossos, violão no peito e voz de quem não pede licença, começa a cantar. Ele se chama Geraldo Vandré. Paraibano de João Pessoa, 33 anos. A canção se chama "Caminhando", mas o povo já a chama de "Pra não dizer que não falei das flores".

> _Caminhando e cantando e seguindo a canção_
> _Somos todos iguais braços dados ou não_
> _Nas escolas, nas ruas, campos, construções_
> _Caminhando e cantando e seguindo a canção_

Não era uma letra de festival. Era um manifesto. Cada verso era um soco na mesa da ditadura que havia se instalado quatro anos antes, em 1964.

> _Vem, vamos embora, que esperar não é saber_
> _Quem sabe faz a hora, não espera acontecer_

A plateia entendeu antes dos jurados. Levantou. Cantou junto. Virou coro. Virou hino. Virou ameaça.

Naquela noite, "Caminhando" perdeu. O júri, pressionado, deu o primeiro lugar para "Sabiá", de Chico Buarque e Tom Jobim. Quando anunciaram, o Maracanãzinho inteiro vaiou. Vaiou tanto que Chico, no palco, fez gesto para o público parar e respeitar. Vandré teve que ser escoltado.

A partir do dia seguinte, a máquina da repressão mostrou a que veio. A canção foi censurada e proibida de tocar no rádio. Em dezembro, veio o AI-5, o Ato Institucional número 5, o mais duro do regime. A censura prévia, a prisão, a tortura, o exílio viraram rotina.

Vandré foi marcado. Perseguido pelo DOI-CODI, ele teve que fugir. Primeiro para o interior, depois para o Chile, para a Argélia, para a Alemanha, para a França. Foram quase cinco anos de exílio. Longe do seu violão, longe do seu país. Quando voltou, em 1973, já não era o mesmo. Calado, recluso, nunca mais fez o mesmo sucesso. O regime conseguiu o que queria: silenciou o autor, mas não conseguiu silenciar a canção. Ela continuou sendo cantada baixinho, nos porões das universidades, nas reuniões sindicais, nos bares. Virou oração.

E Vandré não foi o único.

Enquanto ele estava fora, outro cantor pagava um preço parecido, talvez até mais cruel. Seu nome era Taiguara. Taiguara Chalar da Silva. Um dos maiores compositores da sua geração, voz de veludo, sucesso absoluto com "Hoje", "Universo no Teu Corpo", "Viagem".

Taiguara também ousou. Em 1973, gravou o disco "Let The Children Hear Music" no exterior. Em 1975, lançou "Imyra, Tayra, Ipy - Taiguara", um disco censurado na íntegra. Todas as 11 músicas foram vetadas. Seu nome foi colocado na lista negra. Não podia tocar no rádio, não podia aparecer na TV. O telefone parou de tocar. Os contratos foram cancelados. Foi exilado em Londres. Quando voltou, adoeceu. Morreu em 1996, aos 50 anos, de câncer de bexiga, mas quem o conheceu jura que ele morreu foi de tristeza, de asfixia artística, de um país que o proibiu de cantar. Taiguara foi outro morto pela ditadura, mesmo que a certidão de óbito diga outra coisa.

A canção de Vandré sobreviveu a tudo isso. Ficou guardada, como uma brasa sob as cinzas, por 15 anos.

Até que em 1983, a brasa virou incêndio.

O Brasil não aguentava mais 19 anos de governo militar. A crise econômica, a inflação de 200%, o desemprego. E um deputado, Dante de Oliveira, propôs uma emenda para que o próximo presidente fosse escolhido pelo voto direto do povo. Nasceu o movimento das *Diretas Já*.

Foi a maior mobilização popular da história do Brasil. Nunca antes, nem depois, tanta gente foi para a rua por um mesmo motivo. Em abril de 1984, 1 milhão e meio de pessoas na Praça da Sé, em São Paulo. No Rio, outro milhão na Candelária. Não tinha partido. Tinha gente. Tinha família inteira com faixa na mão.

E o que tocava em todos os palanques, em todas as passeatas, no carro de som? A mesma canção de 1968.

_Vem, vamos embora, que esperar não é saber_
_Quem sabe faz a hora, não espera acontecer_

A canção que tinha sido proibida em 68 virou trilha sonora de 84. O sonho não tinha acabado. Ele só tinha adormecido.

A emenda das Diretas perdeu no Congresso por 22 votos. Foi uma frustração nacional. Mas o movimento era grande demais para morrer. A saída foi uma eleição indireta no Colégio Eleitoral.

E foi aí que apareceu ele.

Um mineiro de São João del Rei, de 75 anos, conciliador, de voz mansa e bigode branco. Tancredo Neves. Ele não gritava. Ele não xingava. Ele era a esperança em forma de gente. O avô que todo mundo queria ter. O homem que ia costurar um país quebrado.

Quando Tancredo aparecia na TV, a música tocava. Quando ele discursava, o povo cantava "Pra não dizer que não falei das flores". Ele era o novo dia que Vandré tinha cantado 16 anos antes. Ele seria o primeiro presidente civil depois de 21 anos.

Ele foi eleito em 15 de janeiro de 1985. O Brasil chorou. Houve festa nas ruas. Fogos. Abraços. A ditadura tinha acabado.

Faltavam seis dias para a posse. Era 14 de março. Tancredo Neves foi internado no Hospital de Base, em Brasília, com fortes dores abdominais. Diverticulite. O país parou em frente à TV. Foram 38 dias de agonia, de boletins médicos, de correntes de oração, de velas acesas.

No dia 21 de abril de 1985, Dia de Tiradentes, às 22h23, o porta-voz anunciou: Tancredo Neves morreu.

O Brasil que tinha acabado de nascer de novo, morreu junto por uma noite. O silêncio foi ensurdecedor. As ruas que tinham sido de festa das Diretas, agora eram de velório. Milhões de pessoas acompanharam o cortejo de Brasília até São João del Rei.

E no rádio, de novo, a mesma canção. Mas agora não era de luta. Era de luto.

_Há soldados armados, amados ou não_
_Quase todos perdidos de armas na mão_
_Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição_
_De morrer pela pátria e viver sem razão_

Geraldo Vandré não morreu no exílio. Ele está vivo, com 90 anos, recluso em São Paulo. Mas ele morreu um pouco a cada dia daquele exílio. Taiguara morreu de verdade, calado pela censura.

Tancredo morreu sem tomar posse.

Mas a canção não morreu. Porque ela não é de um homem. Ela é de um povo que aprendeu que, quando a hora chega, não adianta esperar acontecer.

VÍDEO E LETRA





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