HISTORIA DAS MUSICAS DISPARADA E A BANDA
*DISPARADA - A HISTÓRIA COMPLETA DO HINO QUE PAROU O BRASIL EM 1966*
Uma canção que nasceu como moda de viola e acabou virando hino de resistência. Essa é a história de "Disparada", um dos maiores clássicos da Música Popular Brasileira.
*A COMPOSIÇÃO*
"Disparada" foi composta em 1966 por dois nomes gigantes: a melodia é de Théo de Barros e a letra é de Geraldo Vandré.
Vandré, paraibano criado no Rio de Janeiro, vivia o auge do movimento estudantil e do nacionalismo dos anos 60. Théo de Barros já era um violonista consagrado. Juntos, eles queriam criar algo que nunca tinha sido feito nos festivais: trazer o Brasil do interior, do sertão, para o palco da cidade grande.
A ideia era ousada. Até então, os festivais eram dominados pela Bossa Nova e pelo samba urbano. "Disparada" trouxe a viola caipira, o ritmo de cururu e a figura do boiadeiro.
*O SIGNIFICADO OCULTO DA LETRA*
À primeira vista, parece a história de um boiadeiro que laça seu boi. Mas a letra é uma metáfora poderosa da época da Ditadura Militar.
Vandré compara a boiada ao povo brasileiro. O boiadeiro que se acha rei, mas na verdade é explorado, representa o trabalhador. Os versos "Prepare o seu coração pras coisas que eu vou contar" anunciam uma crítica social direta: fala da exploração das classes pobres pelos ricos, do homem do campo que trabalha sem parar e nunca é dono de nada.
> "Na boiada já fui boi, mas um dia me apartei
> Eu ponho quem eu quiser na fila pra boiar"
É o momento em que o oprimido descobre sua força.
*O FESTIVAL E A VOZ DE JAIR RODRIGUES*
A canção foi inscrita no II Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, em São Paulo, em outubro de 1966. O festival foi realizado no Teatro Record Consolação.
O intérprete escolhido foi Jair Rodrigues. E aqui tem uma curiosidade histórica: Geraldo Vandré não queria Jair. Achava que o estilo alegre, com roupas coloridas e gestos largos de Jair, não combinava com a dramaticidade da letra.
Jair, porém, tinha uma ligação pessoal com a música. Anos depois ele explicou: "Meu pai morreu no lombo de um burro. Ele era boiadeiro, o velho Severiano Rodrigues de Oliveira. Acho que o 'Disparada' tem muita coisa a ver com ele".
No palco, Jair foi acompanhado pelo Trio Marayá e pelo Trio Novo - formado por Heraldo do Monte, Théo de Barros e um jovem Airto Moreira na queixada de burro. A performance com braços abertos, voz rasgada e gritos de boiadeiro, foi fulminante.
*O EMPATE HISTÓRICO QUE NINGUÉM ESQUECE*
Na noite final, em 10 de outubro de 1966, o Brasil parou. A final tinha 12 músicas. As duas favoritas eram "Disparada" e "A Banda", de um jovem chamado Chico Buarque de Holanda, defendida por Nara Leão.
Nas folhas de votação do júri, "A Banda" venceu por 7 votos a 5. Mas Chico Buarque, ao saber do resultado, foi até a comissão organizadora e disse que não aceitaria ganhar sozinho. Para ele, "Disparada" era a melhor música do festival e se houvesse apenas um vencedor, ele entregaria o prêmio.
Para evitar o constrangimento, a organização anunciou um empate histórico: duas vencedoras no primeiro lugar. Foi a primeira vez que isso acontecia e criou duas torcidas no Brasil inteiro - quem era de "A Banda" e quem era de "Disparada".
*PARTICULARIDADES QUE POUCOS SABEM*
*1. A batida diferente:* Foi a primeira vez que uma moda de viola entrou num festival de MPB com arranjo moderno, com viola, percussão e coral.
*2. Sucesso internacional:* A canção foi gravada em francês pela cantora Frida Boccara com o nome "Taureau" (Touro).
*3. O Trio Novo nasceu ali:* O grupo que acompanhou Jair foi criado especialmente para o festival e se tornou um dos grupos instrumentais mais importantes do Brasil.
*4. O prenúncio de Vandré:* Dois anos depois, em 1968, Vandré comporia "Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores (Caminhando)", que se tornaria o maior hino contra a ditadura e que o levaria ao exílio.
Disparada permanece até hoje como o retrato do Brasil profundo, que canta sua dor em forma de aboio, mas que um dia resolve se apartar da boiada.
LETRA E MUSICA
*A BANDA - A HISTÓRIA COMPLETA DA OUTRA CAMPEÃ DE 1966*
Se "Disparada" era o grito do sertão, "A Banda" era a poesia da cidade que sonhava com alegria.
*A COMPOSIÇÃO*
"A Banda" foi composta em 1966 por um jovem de apenas 22 anos chamado Chico Buarque de Holanda. Ele já tinha feito "Olê Olá", mas ainda era desconhecido do grande público.
Chico escreveu a música em casa, no violão, imaginando uma banda que passa na rua triste e de repente traz alegria para todos. A inspiração foi simples: ele via uma banda militar passando na Rua e pensou no efeito que a música tem nas pessoas comuns.
A letra é toda uma metáfora. A banda que passa representa o amor, a esperança, a felicidade que some rápido. O "meu bem" que ele chama é a vida que fica vazia quando a música acaba.
*O FESTIVAL E A VOZ DE NARA LEÃO E CHICO*
Chico inscreveu a música no II Festival da TV Record de 1966. Quem deveria cantar era Nara Leão, a musa da Bossa Nova.
Na semana do festival, Nara ficou rouca. Para não perder a chance, Chico subiu no palco junto com ela para cantar. Foi a primeira vez que o Brasil viu Chico Buarque cantando em público.
Com seu jeito tímido, magrinho, de óculos, cantando baixinho "Estava à toa na vida...", ele conquistou a plateia. O Brasil inteiro se apaixonou na hora.
Acompanhado pelo Quarteto em Cy, a apresentação foi leve, doce, completamente diferente da força de Jair Rodrigues.
*O EMPATE*
Na final, como contei na matéria de cima, o júri deu 7 votos para "A Banda" e 5 para "Disparada". Chico não aceitou ganhar sozinho e pediu o empate. A Record anunciou então as duas como primeiro lugar.
Chico levou o prêmio de Cr$ 4 milhões da época e gravou logo depois o primeiro LP.
*3 CURIOSIDADES RÁPIDAS:*
*1. Sucesso imediato:* Em uma semana, "A Banda" vendeu 100 mil compactos. Foi o disco mais vendido do ano.
*2. Gravada no mundo todo:* Foi gravada em francês por France Gall como "La Bande", e em italiano por Mina como "La Banda".
*3. A música da volta:* Até hoje, quando uma banda passa no interior, o povo ainda canta "A banda passou..." por causa dela.
As duas campeãs de 66 ficaram na história: uma representando o Brasil que trabalha no campo, a outra representando o Brasil que sonha na cidade.
VIDEO E LETRA


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