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29 de outubro de 2026

A HISTORIA DE AZUL DA COR DO MAR E DE TIM MAIA



*AZUL DA COR DO MAR - A HISTÓRIA DO PRIMEIRO GRANDE VOO DE TIM MAIA*

Sebastião Rodrigues Maia nasceu na Tijuca, na Rua Afonso Pena, número 24, em 28 de setembro de 1942. Penúltimo de dezenove filhos. Menino pobre, que ajudava a família entregando marmita, por isso o primeiro apelido: Tião Marmiteiro. Depois, Babulina, por causa da pronúncia enrolada de "Bop-A-Lena", de Ronnie Self.

Foi na Igreja de São Sebastião dos Capuchinhos, no Haddock Lobo, que tudo começou. Ali nasceu o conjunto Tijucanos do Ritmo. Tim foi da bateria para o violão e dali para a história.

Em 1957, ele funda o grupo vocal The Sputniks. No vocal, um rapaz magrelo e tímido da mesma rua: Roberto Carlos. Arlênio Lívio e Wellington completavam. Eles cantavam no Clube do Rock de Carlos Imperial, na TV Tupi. Foi Tim quem mostrou a Roberto como se tocava rock no violão. Roberto mesmo confessou anos depois: ouviu Tim tocar "Long Tall Sally", de Little Richard, foi pra casa e ficou a noite inteira tentando tirar aquela batida. Aquilo mudou a forma dele tocar.

Erasmo nunca foi dos Sputniks, era dos Snakes. Mas também aprendeu com Tim. Três acordes que mudariam a música brasileira: Ré, Lá e Mi. "Tim me ensinou tudo", dizia Erasmo.

Antes da Jovem Guarda existir, existiram os piqueniques. No Parque Lafaiete, na Tijuca. Tim organizava. Levava o violão, chamava a turma. Foi ali que Jorge Ben ainda tímido apareceu com seu violão torto, que Roberto começou a soltar a voz, que Erasmo começou a fazer suas primeiras rimas. Tim era o mestre de cerimônias, o precursor. Quando a Jovem Guarda estourou na televisão, ele não estava lá. Ele estava em outro país, tentando a sorte.

Em 1959, com 17 anos, foi para os Estados Unidos. Morou em Tarrytown, a 40 quilômetros de Nova York, na casa de uma família que havia conhecido no Brasil. Lá virou Jim, porque americano não conseguia pronunciar Tião. Entrou para a efervescência do jazz, do soul, do gospel das igrejas negras. Cantou em banda de twist, depois entrou para o grupo The Ideals, de Roger Bruno. Gravou "New Love" e "Go Ahead and Cry". Aprendeu tudo sobre black music na fonte.

Mas a América foi dura. Sem documentos, sem dinheiro, fez bicos, pulou catraca de trem, furtou comida em supermercado. No fim de 1963 foi preso por roubo e porte. Passou seis meses na cadeia e em 1964 foi deportado. Voltou para o Brasil só com a roupa do corpo. Ligou para a mãe do aeroporto pedindo para ir buscá-lo. Disse para a família que tinha voltado para não ser convocado para a Guerra do Vietnã.

Quando voltou, os velhos amigos da Tijuca eram os reis do rádio. Roberto e Erasmo lotavam estádios com a Jovem Guarda. Tim foi tentar a sorte em São Paulo. Passou fome e frio. Tentou falar com Roberto. Era impossível, tamanha era a multidão de fãs. Chegou a se esconder no estacionamento do prédio de Roberto. Só conseguiu falar com ele por acaso, através da namorada de Roberto na época. Mostrou a fita demo.

Roberto ouviu. Levou para o seu produtor. Nasceu o primeiro compacto de Tim em 1968, com produção antiquada, sem o peso do soul que Tim queria. Não estourou. Mas em 1969 Roberto gravou "Não Vou Ficar", de Tim, no seu disco daquele ano. Foi o primeiro empurrão. A porta se abriu.

Tim, porém, carregou para o resto da vida uma mágoa. Sentia que tinha ensinado, que tinha aberto o caminho, que tinha feito os piqueniques onde todos nasceram, e que depois foi esquecido. Era o gênio rude, que não sabia pedir. Essa ferida com Roberto nunca cicatrizou totalmente. Era amor e ciúme de irmão mais velho.

Veio 1969. Tim estava no fundo do poço. Sem dinheiro, sem casa, sem namorada, recém-chegado de São Paulo. Foi morar de favor no apartamento de um amigo, o cantor Fábio, na Rua Real Grandeza, em Botafogo. Fábio dividia o apartamento com seu empresário, Glauco. O apartamento tinha dois quartos, um de cada. Para Tim sobrou o sofá da sala. Um sofá velho apelidado de "dromedário".

O apartamento era um entra e sai de meninas bonitas atrás do cantor-galã Fábio e do empresário conquistador. E Tim ali, sozinho, no sofá, ouvindo risos e gemidos vindos dos quartos. Triste, carente, com 27 anos e uma vida inteira já vivida, de cadeia, deportação, fome.

Fábio e Glauco viajaram para fazer shows em Salvador e Recife. Tim ficou sozinho. Pela primeira vez abandonou o dromedário e foi dormir na cama de Glauco. Na parede, em frente à cama, havia um pôster grande, de uma mulher morena de biquíni, numa praia do Taiti, com aquele mar azul infinito ao fundo.

Tim olhou para aquele azul. Pegou o violão.

Num final de semana inteiro, sozinho naquele quarto, nasceu a canção:

_Ah! Se o mundo inteiro me pudesse ouvir_
_Tenho muito pra contar_
_Dizer que aprendi_
_E na vida a gente tem que entender_
_Que um nasce pra sofrer_
_Enquanto o outro ri_
_Mas quem sofre sempre tem que procurar_
_Pelo menos vir a achar_
_Razão para viver_
_Ver na vida algum motivo pra sonhar_
_Ter um sonho todo azul_
_Azul da cor do mar_

Quando Fábio voltou de viagem, Tim apertou o play do gravadorzinho. Fábio ouviu em silêncio e gritou: "Mermão! Tu acabou de fazer a música da tua vida!"

Ele estava certo.

"Azul da Cor do Mar" foi composta em 1968, mas gravada e lançada em junho de 1970, no primeiro álbum "Tim Maia", pela Polydor. O disco tinha ainda "Primavera (Vai Chuva)", de Cassiano, "Coroné Antônio Bento" e "Eu Amo Você". A produção foi de Jairo Pires, com arranjos de Waltel Branco.

O Brasil nunca tinha ouvido uma voz daquelas. Rouca, rasgada, soul, negra, cantando uma letra simples e profunda sobre desigualdade e esperança ao mesmo tempo. O disco vendeu mais de 200 mil cópias, ganhou disco de ouro. Foi eleito um dos 25 melhores discos brasileiros de todos os tempos pela Rolling Stone.

Tim Maia não inventou apenas um sucesso. Ele inventou o soul brasileiro. Trouxe o funk, o baião misturado com Motown, o grito da igreja negra americana para o subúrbio carioca. Tudo o que a Jovem Guarda cantou depois, ele já tinha mostrado nos piqueniques da Tijuca com um violão emprestado.

Azul da cor do mar não era só uma canção de amor a uma mulher do pôster. Era o sonho do próprio Tim. Um rapaz que nasceu para sofrer, mas que passou a vida inteira procurando uma razão para viver. E encontrou. Num sonho todo azul.

OUVIR E VER




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