O SÓFRIMENTO DO INVENTOR BRASILEIRO




Hoje, 4 de novembro, Dia do Inventor no Brasil, é dia de lembrar que o Brasil não é só o país do futebol e do samba, é o país de gênios que inventaram o futuro e que o mundo fez questão de esquecer, e a história começa muito antes do 14-Bis decolar em Paris e começa com a luta, com o sofrimento de homens que foram chamados de loucos.




O primeiro deles, o maior de todos, Alberto Santos Dumont, nasceu no dia 20 de julho de 1873 na Fazenda Cabangu, em Palmira, hoje cidade de Santos Dumont, em Minas Gerais, filho do engenheiro ferroviário Henrique Dumont e de Francisca, um menino franzino, que não gostava de brincar de bola, gostava de desmontar relógio e de olhar o céu, e o pai, vendo aquela inteligência diferente, mandou o menino para Paris para estudar física, química, mecânica, e lá em Paris, com apenas 24 anos, com o dinheiro da herança do pai, Santos Dumont começou a construir balões, e cada balão era um fracasso que custava quase a vida dele, o Brasil número 1, 2, 3, 4, 5, subia e caía, pegava fogo, e a imprensa parisiense o chamava de o brasileiro maluco que queria voar, até que em 1901 ele ganhou o Prêmio Deutsch de 100 mil francos por contornar a Torre Eiffel com seu dirigível número 6 em menos de 30 minutos, e ficou famoso no mundo todo, mas ele não queria ficar girando em torno de torre, ele queria mais, ele queria que o homem voasse sozinho, sem precisar de gás, só com motor, e foi aí que trancado num galpão em Neuilly, sem dormir, comendo mal, com as mãos cortadas de tanto lixar madeira e esticar seda, ele construiu o 14-Bis, uma engenhoca de 10 metros feita de bambu, seda japonesa e um motor Antoinette de 50 cavalos, e no dia 23 de outubro de 1906, no Campo de Bagatelle, na frente de juízes, de jornalistas, de todo o povo de Paris, aquele avião correu 60 metros e subiu 2 metros do chão por 7 segundos, foi o primeiro voo homologado da história do mundo feito por meios próprios, sem rampa, sem catapulta, sem vento, diferente dos irmãos Wright que jogaram um planador de um penhasco com trilho, e depois, em 12 de novembro do mesmo ano, ele voou 220 metros em 21 segundos e ganhou a Taça Archdeacon, e o mundo se curvou.






E desse mesmo cérebro inquieto saiu ainda o relógio de pulso, porque ele precisava ver as horas voando e não conseguia tirar o relógio do bolso, então pediu ao amigo Cartier que fizesse uma pulseira de couro com relógio. 


Aí o Cartier mandou fazer um relógio com pulseira de couro pra prender no pulso. Nasceu o *Santos*, o primeiro relógio de pulso do mundo feito pra homem usar.

O Santos Dumont usava e todo mundo em Paris queria igual. O Cartier começou a vender e virou um dos relógios mais caros do mundo até hoje. Mais de 120 anos vendendo. Um Santos original hoje custa mais de 40 mil reais.

O Cartier ficou bilionário com a marca dele, e o Santos Dumont que teve a ideia não ganhou um centavo de patente. Não quis cobrar.
É exatamente o sofrimento  que o brasileiro inventa, o gringo fica rico.



 E fez um  elevador mais seguro, mas a genialidade cobrou um preço alto, Santos Dumont 2 usados na Primeira Guerra Mundial para jogar bombas e metralhar trincheiras, e isso acabou com ele por dentro, voltou para o Brasil doente, amargo, se isolou, e no dia 23 de julho de 1932, aos 59 anos, no Hotel La Plage no Guarujá, em São Paulo, em meio à tristeza da Revolução Constitucionalista onde ele via de novo aviões brasileiros bombardeando brasileiros, ele se enforcou com duas gravatas, morreu sozinho, o homem que ensinou o mundo a voar não aguentou ver o homem usando o voo para se matar.




É a dor do pai de Francisco Canhos, em Jaú, no interior de São Paulo. O velho sofria de reumatismo, e todo banho era um sofrimento. Tinha que esquentar água no fogão a lenha, carregar balde, a água já chegava morna, fria. O Francisco não aguentava ver aquilo.

Então ele se trancou na oficina pequena, com 13, 14 anos. Pegou um ferro de passar roupa, arrancou a resistência, enfiou dentro de um cano. E aí começou o sofrimento dele.

A resistência queimava. Dava choque. A água e a eletricidade não queriam ficar juntas, todo mundo dizia que era loucura, que ia matar alguém. Ele inventou um diafragma de borracha pra isolar, inventou o sistema que liga sozinho quando abre o registro. Noite após noite queimando a mão, perdendo material que não tinha dinheiro pra comprar.

Depois sofreu na rua. Saía de porta em porta em Jaú vendendo o aparelho, e o povo ria: "água com luz? Você é doido?"

Ele criou a fábrica F. Canhos, vendeu pro Brasil inteiro, mas sofreu o golpe final: deixou a patente vencer. Em 1943 patenteou, nos anos 50 perdeu. A Lorenzetti pegou e ficou gigante. Ele morreu em 1988 em Jaú, quase esquecido, mas com 73% dos lares brasileiros tomando banho quente graças à dor dele.


E essa dor é a marca d inventor brasileiro, a mesma dor do padre gaúcho Roberto Landell de Moura, nascido em Porto Alegre em 1861, que em 1893, onze anos antes de Marconi, fez em São Paulo a primeira transmissão de voz humana sem fio da história, falando a oito quilômetros de distância, e que também inventou a válvula de três eletrodos, o princípio do rádio, do telefone sem fio e da televisão, mas foi chamado de bruxo, teve seus aparelhos quebrados pelo governo e morreu pobre e esquecido em 1928.



É  a mesma dor do padre Francisco João de Azevedo, nascido no Ceará em 1814, que em 1861, sozinho numa oficina no Recife, com madeira, faca de cozinha e arame, construiu a primeira máquina de escrever do mundo, 12 anos antes do americano Sholes, e levou ao Imperador Dom Pedro II que achou interessante mas não deu dinheiro para fabricar, e morreu sem ver sua máquina rodar o mundo.



 E a mesma dor de Manuel Dias de Abreu, nascido em São Paulo em 1892, que vendo milhares morrerem de tuberculose inventou em 1936 a abreugrafia, a chapa de pulmão barata e rápida que salvou milhões e foi usada no Brasil inteiro por 40 anos, mas que nunca lhe deu fortuna.



E de Andreas Pavel, brasileiro nascido em 1945 que em 1972 em São Paulo inventou o Stereobelt, um aparelho na cintura para ouvir música estéreo andando na rua, que é o pai do Walkman, do iPod, de tudo que usamos hoje, e que teve que brigar 30 anos na justiça contra a Sony para ser reconhecido.  


Essa é a história do inventor brasileiro, não é só de invenção, é de teimosia, de luta contra a falta de dinheiro, contra a inveja de fora e o descaso de dentro, de gente que nasceu pobre ou rico mas morreu quase sempre triste por ver sua criação ir embora, e é por isso que hoje, no Dia do Inventor, a gente não comemora só a máquina, a gente comemora o homem que sangrou para fazê-la voar.

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