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22 de outubro de 2026

10 SONETOS DE WILLIAN SHAKESPEARE




*1. SONETO 18 - Devo comparar-te a um dia de verão?*

Devo comparar-te a um dia de verão?
És mais amável e mais amena.
Ventos fortes sacodem os botões de maio,
E o verão dura sempre tão pouco.
Às vezes o olho do céu brilha quente demais,
E muitas vezes sua tez dourada se apaga;
E toda beleza um dia perde o viço,
Pelo acaso ou pelo curso da natureza.
Mas teu eterno verão não irá murchar,
Nem perderás a beleza que possuis;
Nem a Morte se gabará de te levar em sua sombra,
Pois crescerás eterna nestes versos.
Enquanto houver homem que respire e olhos que vejam,
Viverá este meu canto, e te fará viver.

*2. SONETO 29 - Quando em desgraça com a sorte*

Quando em desgraça com a sorte e com os homens,
Sozinho choro meu estado de pária,
E importuno o céu surdo com gritos vãos,
E olho para mim e amaldiçoo meu destino,
Desejando ser como um mais rico em esperança,
Com o rosto daquele, com os amigos daquele,
Desejando a arte deste e o alcance daquele,
Com o que mais gosto, menos contente fico.
Mas nesses pensamentos quase me desprezando,
Por acaso penso em ti, e então meu estado,
Como a cotovia que ao romper do dia se ergue
Da terra sombria, canta hinos à porta do céu.
Pois ao lembrar teu doce amor, tal riqueza me vem,
Que desprezo trocar meu estado com o de reis.

*3. SONETO 30 - Quando nas sessões do pensamento*

Quando nas sessões do doce e silencioso pensamento
Convoco as lembranças do que já passou,
Suspiro pela falta de muitas coisas que busquei,
E com velhas mágoas choro o tempo perdido.
Então posso afogar os olhos, pouco afeitos a chorar,
Por amigos queridos escondidos na noite sem fim da morte,
E chorar de novo o pranto do amor há muito cancelado,
E gemer pela perda de tantas visões desvanecidas.
Então posso sofrer por sofrimentos já passados,
E contar de novo, pesadamente, de dor em dor,
A triste conta dos lamentos já lamentados,
Que pago de novo como se não tivesse pago antes.
Mas se enquanto isso penso em ti, querido amigo,
Todas as perdas se reparam e as dores terminam.

*4. SONETO 116 - Que não me impeçam o casamento das almas*

Que não me impeçam o casamento das almas gêmeas!
Amor não é amor quando muda ao mudar,
Ou quando se curva para desculpar quem se afasta.
Oh não! Amor é um farol sempre firme,
Que vê a tempestade e nunca se abala.
É a estrela-guia de todo barco errante,
Cujo valor se ignora, embora se meça a altura.
Amor não é tolo do Tempo, embora lábios rosados
Caiam sob o alcance de sua foice curva.
Amor não muda com suas breves horas e semanas,
Mas resiste até mesmo à beira do fim do mundo.
Se isso for erro e em mim for provado,
Eu nunca escrevi, nem ninguém jamais amou.

*5. SONETO 130 - Os olhos da minha amada não são como o sol*

Os olhos da minha amada não são como o sol;
O coral é muito mais vermelho que o vermelho de seus lábios;
Se a neve é branca, os seios dela são escuros;
Se cabelos são fios, fios negros crescem em sua cabeça.
Já vi rosas damascadas, vermelhas e brancas,
Mas não vejo rosas assim em suas faces;
E há perfumes que me dão mais deleite
Que o hálito que minha amada exala.
Gosto de ouvi-la falar, mas bem sei
Que a música tem um som muito mais agradável;
Admito que nunca vi uma deusa andar;
Minha amada, quando anda, pisa no chão.
E ainda assim, por Deus, acho meu amor tão raro
Quanto qualquer outra mentida em falsa comparação.

*6. SONETO 55 - Nem mármore, nem monumentos dourados*

Nem mármore, nem monumentos dourados de príncipes
Sobreviverão a esta poderosa rima;
Mas tu brilharás mais forte nestes versos
Que a pedra não varrida, suja pelo tempo vadio.
Quando a guerra destruidora derrubar estátuas,
E os conflitos arrancarem a obra de alvenaria,
Nem a espada de Marte nem o fogo rápido da guerra
Queimarão o registro vivo de tua memória.
Contra a morte e a inimizade que tudo esquece,
Tu seguirás em frente; teu louvor ainda achará lugar
Mesmo nos olhos de toda a posteridade
Que usará este mundo até o dia do juízo final.
Então, até o julgamento em que tu mesmo te erguerás,
Tu viverás nisto, e habitarás nos olhos dos amantes.

*7. SONETO 73 - Essa época do ano em mim podes ver*

Essa época do ano em mim podes ver
Quando folhas amarelas, ou poucas, ou nenhuma, pendem
Nos galhos que tremem contra o frio,
Coros em ruínas, onde há pouco os doces pássaros cantavam.
Em mim tu vês o crepúsculo de um dia
Que após o pôr do sol se apaga no oeste,
Que logo a noite escura leva embora,
Segunda imagem da morte, que sela tudo em repouso.
Em mim tu vês o brilho de um fogo
Que sobre as cinzas de sua juventude jaz,
Como no leito de morte onde deve expirar,
Consumido por aquilo que foi por ele nutrido.
Isso tu percebes, o que torna teu amor mais forte,
Para amar bem aquilo que em breve terás que deixar.

*8. SONETO 104 - Para mim, belo amigo, nunca poderás ser velho*

Para mim, belo amigo, nunca poderás ser velho,
Pois como eras quando primeiro meus olhos te viram,
Assim parece tua beleza ainda. Três invernos frios
Sacudiram das florestas o orgulho de três verões,
Três belas primaveras se tornaram amarelo outono
No processo das estações eu vi,
Três perfumes de abril em três junos quentes queimaram,
Desde que te vi fresco, e ainda verde estás.
Ah! Mas a beleza, como o ponteiro do relógio,
Rouba da figura sem que se perceba o passo;
Assim tua doce cor, que ainda parece firme,
Tem movimento, e meu olho pode se enganar.
Por medo disso, ouve: tu, que ainda não nasceste,
Antes de tu nasceres, o verão da beleza já estava morto.

*9. SONETO 119 - Que poções bebi de lágrimas de sereia*

Que poções bebi de lágrimas de sereia,
Destiladas de alambiques imundos como o inferno,
Aplicando medos a esperanças e esperanças a medos,
Ainda perdendo quando me via ganhar!
Que erros miseráveis meu coração cometeu,
Enquanto se achava tão abençoado como nunca!
Como meus olhos fora de suas órbitas foram postos
Na distração desta febre enlouquecedora!
Ó benefício do mal! Agora descubro ser verdade
Que o melhor pelo mal se torna ainda melhor;
E o amor arruinado, quando reconstruído de novo,
Cresce mais belo que antes, mais forte, muito maior.
Assim retorno, repreendido, ao meu contentamento,
E ganho com o mal três vezes mais do que gastei.

*10. SONETO 120 - Que tenhas sido cruel antes, agora me ajuda*

Que tenhas sido cruel antes, agora me ajuda,
E por aquela tristeza que então senti,
Preciso curvar-me sob minha transgressão,
A menos que meus nervos sejam de bronze ou aço martelado.
Pois se foste abalada pela minha crueldade
Como eu pela tua, passaste por um inferno,
E eu, um tirano, não tive tempo
Para pesar o quanto sofri com teu crime.
Oh, que nossa noite de sofrimento pudesse ter lembrado
Meu senso mais profundo, de como dói a tristeza verdadeira,
E logo a ti, como tu a mim, então oferecido
O humilde bálsamo que serve a peitos feridos!
Mas que tua ofensa agora se torne um pagamento;
A minha resgata a tua, e a tua deve resgatar a minha.


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