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13 de outubro de 2026

O ROMÂNTICO E O REALISTA




*JORGE E JOSÉ*O ROMÂNTICO E O REALISTA 


Na minha rua tem duas cadeiras de plástico. Não saem dali nunca. Estão sempre na mesma calçada, no mesmo sol torto do fim de tarde.

Numa senta o Jorge. Na outra, o José.

Os dois são novos. Desempregados. Não fazem nada pra ninguém. O trabalho deles é ficar ali, olhando a rua passar, como se a rua fosse uma televisão que ninguém paga a conta.

Todo dia, mais ou menos na mesma hora, passa a mesma menina.

Ela é linda de um jeito que incomoda. Cabelo encaracolado, olho verde, andando depressa como quem tem pra onde ir. Coisa que nem Jorge nem José têm.

E é quando ela passa que você entende, na prática, o que é romantismo e o que é realismo. Sem precisar de livro.

O Jorge é romântico.

Ele vê a menina lá no começo da rua e já acontece uma transformação. Ele endireita a coluna. Passa a mão no cabelo. Dá aquela ajeitada na camisa que não tem mais botão. Ele sonha.

O romantismo é isso. É sonhar com uma coisa que você não tem, às vezes com uma coisa que você nunca vai ter, mas sonhar como se já fosse sua.

Ele imagina que ela vai olhar. Que ela vai diminuir o passo. Que ela vai sorrir só pra ele. Enquanto ela passa, ele prende a respiração. E quando ela vai embora, sem olhar, ele solta o ar num suspiro. Um suspiro de quem ainda tem esperança pra amanhã. Amanhã ela passa de novo.

O José é o realista.

Ele vê a mesma menina, do mesmo jeito, na mesma rua, na mesma hora. Só que ele reage ao contrário.

Ele não olha no olho verde. Ele abaixa a cabeça de propósito. Olha pro tênis dela. Pra bolsa. Pra roupa.

Aí cutuca o Jorge e fala, rindo: "Olha lá. É a mesma roupa de ontem. Ih, nem lavou".

Ele solta um suspiro também, mas é um suspiro de desdém. De quem finge que não liga. De quem finge que está acima daquilo.

Mas o José não é realista. Isso é mentira que ele conta.

O José é só um romântico que fracassou antes da hora. É um romântico cansado de se frustrar. Ele já esperou demais menina passar e não olhar. Já sonhou demais e quebrou a cara. Então agora ele mudou de tática. Ele finge que não quer. Ele disfarça aquilo que ele não tem coragem de romantizar mais.

É mais fácil falar da roupa repetida do que dizer "poxa, ela não olhou pra mim de novo". Dói menos ser cínico do que ser rejeitado.

O Jorge sofre porque tem esperança demais.
O José sofre porque finge que não tem esperança nenhuma.

Só que se você ficar mais meia hora ali na calçada, você percebe: os dois sofrem da mesma coisa. Os dois estão na mesma cadeira de plástico, esperando a mesma menina, pelo mesmo motivo.

Ontem aconteceu uma coisa diferente.

A menina passou, mas não passou sozinha. Passou de mão dada com um rapaz.

O Jorge ficou quieto. Não endireitou a coluna. Ficou olhando pro chão. Pela primeira vez não sonhou.

O José também ficou quieto. Não falou da roupa. Não riu. Ficou só olhando a rua, como se não tivesse visto nada.

Ficaram ali os dois, sem graça, até o sol ir embora.

Aí o Jorge falou: "Ela arrumou namorado".

E o José respondeu: "Eu já sabia. Desde ontem".

Mentira dele. Ele não sabia de nada. Só falou isso pra doer menos.

E continuaram sentados.

Porque no fim das contas, a diferença entre o romântico e o realista é só a desculpa que cada um inventa pra continuar sentado na mesma cadeira.

A verdade, a verdade mesmo, é uma só pros dois, e pra todo mundo que fica na calçada olhando a vida alheia passar: o maior desejo do ser humano não é ter dinheiro, não é ter emprego, não é ter casa.

O maior desejo do ser humano é ser desejado por outro ser humano. Nem que seja por dois segundos, quando passa na rua.

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