UM PASSEIO NO MUSEU NACIONAL DA QUINTA ANTES DO INCÊNDIO
Essa é a entrada clássica que todo carioca conhece — o palácio da Quinta:
O Museu Nacional fica no antigo Paço de São Cristóvão, onde moraram Dom João VI, Dom Pedro I e Dom Pedro II. Depois virou Museu em 1892.
Essa escadaria dupla com os dois leões na base é onde todo mundo subia para entrar na parte egípcia — era logo no primeiro andar, à esquerda.
O palácio tem esse amarelo imperial, as estátuas lá em cima no telhado, e atrás dá pra ver o Corcovado.
Depois do incêndio de 2018 ele ficou fechado e está em reconstrução. A previsão é reabrir por partes até 2026/2027, mas a fachada já está toda restaurada igual na foto.
A parte egípcia é a mais famosa do Museu Nacional — era a maior coleção de Egito Antigo da América Latina e a mais antiga das Américas, com mais de 700 peças.
Ela fica logo na entrada histórica do palácio e começou assim:
Em 1826, o comerciante Nicolau Fiengo trouxe de Marselha uma coleção que tinha pertencido ao explorador italiano Giovanni Battista Belzoni, o cara que escavou a Necrópole de Tebas, hoje Luxor, e o Templo de Karnak. Essa coleção ia para a Argentina, mas por causa de um bloqueio no Rio da Prata ele teve que leiloar no Rio. Dom Pedro I arrematou tudo por cinco contos de réis e doou para o Museu.
O que você via lá:
*1. As múmias -* o carro-chefe. Tinha múmia de gente adulta, de criança, e de animais também, gato, íbis, até crocodilo. Tudo vindo de Tebas. A mais famosa era a múmia da princesa Kherima.
*2. Sarcófagos e ataúdes -* uns bem coloridos com hieróglifos pintados, outros de pedra. O sarcófago da Sha-amun-en-su, cantora do templo de Amon, era o mais fotografado.
*3. Shabtis, amuletos e estatuetas -* centenas de bonequinhos funerários que iam com o morto para trabalhar por ele no além, deuses como Osíris, Ísis, Bastet, Anúbis.
*4. Pedras e papiros com hieróglifos -* estelas, fragmentos de templo e alguns papiros do Livro dos Mortos.
Depois do incêndio de 2 de setembro de 2018, muita gente achou que tudo tinha se perdido. Mas a coleção egípcia foi uma das que mais se salvou, porque ficava em armários de metal e parte era de pedra. Os arqueólogos resgataram várias múmias e sarcófagos das cinzas e hoje eles estão sendo restaurados no Horto Botânico, ali mesmo na Quinta.
Hoje o Museu ainda está em obras de reconstrução, então essa ala não está aberta para visitação normal como era antes das 10h às 16h, mas eles fazem exposições itinerantes com as peças salvas. Quando reabrir, a ideia é que o lado egípcio volte a ser o primeiro da visitação.
Essa é a Kherima — a "Princesa do Sol" do Museu Nacional:
Ela é do Período Romano, séc. I-III d.C., tinha 18-20 anos quando morreu. A técnica dela é raríssima no mundo: enfaixamento individual de cada dedo e membro, só 8 múmias no mundo têm isso.
A lenda que você deve lembrar da visitação dos anos 60: diziam que quem ficava muito tempo olhando pra ela entrava em transe. Por isso ela ficou tão famosa.
No incêndio de 2018 ela foi uma das poucas que os bombeiros conseguiram salvar quase intacta, porque o sarcófago de madeira protegeu. Hoje está em restauração e deve voltar quando o Museu reabrir na Quinta da Boa Vista.
Essa é a famosa Sha-Amun-en-su, a Cantora de Amon:
Ela viveu em Tebas por volta de 750 a.C., na 23ª Dinastia. Era sacerdotisa e cantora do templo do deus Amon — um cargo de muito prestígio, tipo uma artista oficial do faraó.
História dela no Brasil:
Em 1876, Dom Pedro II estava viajando pelo Egito e o quediva Ismail Paxá deu de presente pra ele esse sarcófago. Dom Pedro trouxe no navio e doou pro Museu Nacional.
O sarcófago é todo pintado à mão com hieróglifos, a deusa Ísis com as asas abertas, chacais, cruzes ankh. Por dentro estava a múmia dela, toda enfaixada.
Ela foi uma das peças que mais sofreu no incêndio de 2018, mas o time do Museu conseguiu resgatar e identificar os fragmentos. Hoje os restos estão guardados para estudo de DNA.
Assim que era a sala mais famosa do Museu, antes do incêndio — na Quinta da Boa Vista:
Os três sarcófagos lado a lado que todo mundo fotografava:
*Esquerda:* Sha-amun-en-su, a cantora de Amon, c. 750 a.C. — presente do quediva a Dom Pedro II em 1876.
*Meio:* Múmia de Harsiese, c. 1070-664 a.C. — do Terceiro Período Intermediário, com a máscara preta.
*Direita:* Sarcófago antropomórfico, c. 600 a.C. — Período Tardio.
Ao fundo você vê as vitrines com shabtis, vasos canopos onde guardavam os órgãos, estelas com hieróglifos e estatuetas de deuses.
Era uma sala pequena, com cheiro de madeira antiga, piso de taco rangendo. Todo mundo que cresceu no Rio lembra do frio na barriga de passar entre esses três.
Essa coleção tinha 700 peças e era a maior da América Latina. Depois do fogo, resgataram cerca de 200.
Aqui vai mais da parte de arqueologia que ficava logo depois da sala egípcia:
*1. Arqueologia Clássica — Mediterrâneo:*
Essa era a coleção que Dom Pedro I começou a trazer da Europa. Vasos gregos de figuras negras e vermelhas dos séculos VI a IV a.C., ânforas romanas. Tudo usado para vinho e azeite no Império Romano. Era a maior coleção desse tipo da América Latina.
*2. Arqueologia Brasileira — Marajoara:*
Essa é a mais brasileira de todas. Urnas funerárias da Ilha de Marajó, Pará, cultura que existiu de 400 a 1300 d.C. As urnas com rostos humanos eram para enterramento secundário, toda pintada com grafismo em preto, vermelho e branco. O Museu tinha mais de 2 mil peças só de Marajoara.
O Museu tinha 4 áreas grandes de arqueologia:
- Egípcia (700 peças)
- Mediterrânea/Greco-Romana (750 peças)
- Pré-colonial Brasileira (Marajoara, Tapajônica, etc)
- Pré-colombiana (Inca, Asteca, Maia)
Grande parte da cerâmica brasileira sobreviveu ao incêndio porque é de barro cozido e não queima.
E essa é a Luzia, a estrela da paleoantropologia brasileira:
Ela viveu há 11.500 anos em Lagoa Santa, Minas Gerais. Foi encontrada em 1974 na Lapa Vermelha pela arqueóloga francesa Annette Laming-Emperaire. Era a mulher mais antiga das Américas até pouco tempo atrás.
O crânio dela era muito diferente dos indígenas atuais — rosto mais estreito e alto, queixada mais para frente — e isso levantou a teoria de que as Américas foram povoadas por duas levas diferentes.
No incêndio, acharam que ela tinha sido perdida totalmente. Mas os bombeiros acharam fragmentos dela dentro do armário de aço onde era guardada, e conseguiram recuperar 80% do crânio. Hoje é símbolo da reconstrução do Museu.
*1. Sala do Meteorito Bendegó:*
Esse é o Bendegó, 5.360 kg, o maior meteorito já achado no Brasil. Foi achado em 1784 no sertão da Bahia e Dom Pedro II mandou trazer de carro de boi até o Rio em 1888. Na noite do incêndio em 2018, ele ficou lá no meio do fogo — é de ferro, não queimou. Foi o símbolo de que o Museu ia renascer, porque acharam ele intacto em cima das cinzas.
*2. Sala dos Fósseis — Chapada do Araripe:*
Essa é a nova sala da reconstrução, com a doação de 1.100 fósseis que estavam na Alemanha e voltaram em 2024. Tem:
- *Maxakalisaurus topai* à esquerda, o titanossauro de 13m achado em Minas, 70 milhões de anos.
- *Peixes fósseis da Chapada do Araripe* — nas vitrines. Essa Bacia do Araripe, entre Ceará e Pernambuco, tem fósseis de 110 milhões de anos com preservação tão perfeita que dá pra ver até a última escama. São os famosos do Cretáceo Inferior.
O Museu reabriu essa parte em 2024-2025 pra visitação educativa, enquanto o palácio principal termina a restauração.










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