CORDEL DO SERTÃO DE LUÍS GONZAGA
*CORDEL DO SERTÃO DE LUIZ GONZAGA*
Escutem, minha gente boa
O que eu vou agora contar
É história de um povo forte
Que nunca deixa de lutar
É o povo sertanejo
Que aprendeu a não chorar.
Não vou falar de tristeza
Pra deixar ninguém pra baixo
Vou falar de resistência
Do cabra que é macho
Que enfrenta a seca braba
Com o pé descalço no cangacho.
Esse povo tem um cantor
Que cantou seu sofrimento
Luiz Gonzaga do Nascimento
O Rei do Baião, senhor
Nascido lá em Exu
No Pernambuco, interior.
Ano de mil novecentos e doze
No sertão pernambucano
Filho de Januário
Tocador de oito-baixo, humano
E de dona Santana
Gente pobre, nordestina
De coração soberano.
Menino de pé no chão
Aprendeu na sanfona a gemer
O choro da seca, a dor
O gemido do sofrer
E levou pra todo o Brasil
O que o sertão tem a dizer.
E ele cantou Asa Branca
Que é hino do sertanejo
Quando a seca castiga
O sertanejo tem desejo
De ver a ave voltar
E chover no seu terreiro.
Quando o verde dos teus olhos
Se espalha na plantação
Te juro que não me envaideço
Mas me dá no coração
Uma vontade danada
De voltar pro meu sertão.
Ele cantou o Carcará
Ave braba, pega e mata
Ave que não tem pena
Que come, que arrebata
Igualzinho o sertão duro
Quando a fome nos maltrata.
Carcará lá no sertão
É bicho que avoa que nem avião
É a águia de lá
Do meu sertão pernambucano
Pega, mata e come
Carcará não vai morrer de fome!
Mas o carcará é valente
É o sertanejo também
Quando a roça não dá nada
Quando não chove, e além
Ele pega a enxada e luta
Não deve nada a ninguém.
Cantou a Paraíba
Terra de gente valente
Sertão paraibano
De Patos, de gente crente
De Cajazeiras, de Souza
Povo forte e resistente.
Cantou Juazeiro do Norte
Do meu Padim Ciço amado
Cantou o Rio São Francisco
Que corre arretado
Cantou o sertão da Bahia
Cantou o chão rachado.
Eita, saudade danada
Do meu sertão querido
Quando o céu fica cinza
E o chão fica gretado
O sertanejo reza
De joelho dobrado.
A bradeza do sertão
Não é pra qualquer um não
É sol de quarenta graus
Que queima o pé no chão
É o gado morrendo magro
É a água no caminhão.
Mas o sertanejo não foge
Não larga seu torrão
Ele olha pro céu azul
Sem nuvem, sem trovão
E diz: ano que vem chove
Com fé no coração!
Luiz Gonzaga mostrou isso
Na sua sanfona chorada
No seu chapéu de vaqueiro
Na sua voz cansada
Ele era o porta-voz
De uma gente castigada.
Cantou o xote, o baião
O forró pé-de-serra
Cantou o amor pela terra
O amor que não se encerra
O amor do sertanejo
Pela sua própria terra.
Por isso eu canto agora
Com orgulho nordestino
Viva o povo da Paraíba
De Pernambuco, divino
Viva o sertão pernambucano
E o sertão paraibano!
Viva Luiz Gonzaga
O nosso Rei Maior
Que nunca esqueceu o povo
Que cantou com tanto amor
A dor e a alegria
Do vaqueiro sonhador.
Se um dia a chuva voltar
E o sertão verdejar
A Asa Branca vai voltar
E o povo vai cantar
Que o sertanejo é forte
E nunca vai se acabar!


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